Foto: Acervo pessoal Adriana Setti
BeabáEuropa
20/01/2017 | 4 comentários

Adriana Setti – vivendo de viagens em Barcelona

Quando migrei das redações e das assessorias para o mundo dos blogs, tentei encontrar uma forma de continuar fazendo Jornalismo, mas com um tema que me fascinasse e de uma maneira mais leve. Nunca sonhei em ser o que há de pejorativo no termo blogueiro. Para mim, blogueiro é simplesmente quem tem um blog, mas muita gente associa essa expressão a quem busca fama pela fama e quer transformar a vida num reality show online. Por isso, meus espelhos sempre foram pessoas que falam mais das coisas que veem do que de si. No mundo dos blogs de viagem, Ricardo Freire, os ‘conterrâneos’ do 360° Meridianos e Adriana Setti são ótimos exemplos. Já citei a Adriana e seus Achados várias vezes por aqui. Descobri que ela existia pesquisando informações quando me mudei pra Barcelona. Comecei a acompanhar o blog e me identifiquei com suas escolhas e seu estilo irreverente. Depois fiquei sabendo que ela estava há mais de uma década na capital catalã e que vivia de escrever sobre viagens. Agora, a Adriana conta sua trajetória na coluna que explica o passo a passo e os prós e contras para quem quer morar fora do Brasil.

O que faz

Além de ter o próprio blog no site da Abril, Adriana atua como jornalista e editora freelancer em várias publicações. Se você prestar atenção, vai encontrar seus textos na revista Viagem e Turismo, nas revistas da Wine e da Latam e sabe Deus onde mais…

Mosaico com capas de das revistas para as quais Adriana escreve, Viagem e Turismo, Wine e Vamos (da Latam) Blog Vem Por Aqui

Ela costuma passar quatro meses por ano em um país ou uma região específica para dissecar o destino, além de fazer faz várias outras viagens a trabalho.

“Sonho meu, sonho meu…” e de muita gente por aí, mas as coisas não caíram do céu no colo dessa paulistana.

Cássio, marido da Adriana, três mergulhadores moçambicanos e Adriana Blog Vem Por Aqui

Numa das viagens com duração de meses, em Moçambique

O Mochilão

A vontade de morar fora do Brasil veio com força depois que ela fez um mochilão, no final da faculdade.

Em 97, Adriana resolveu passar dois meses na Europa. No primeiro, fez um curso de Civilização Francesa, na Sorbonne.

O curso (que tem lições do idioma e aulas de Cultura Francesa) é muito elogiado e já foi tema de postagens no Conexão Paris e no Nós em Paris.

Desde o começo, a experiência foi reveladora.

Abriu a porta da terceira dimensão [...] Eu cheguei em Paris, olhava aquilo e chorava de emoção. ‘Meu Deus, como é que a humanidade conseguiu construir isso!’ Pra mim foi muito forte o impacto de estar na Europa pela primeira vez, eu fiquei enlouquecida!”

Na Catalunha veio a certeza de que precisava de mais.

Eu cheguei aqui em Barcelona e falei: ‘Meu, eu preciso morar nessa cidade!’ Eu fiquei completamente apaixonada. ”

Ao mesmo tempo, a jornalista já sabia que construir o sonho não seria fácil e queria ter experiências profissionais antes de pular de cabeça na aventura. Até para fazer o mochilão, Adriana pensou um pouco.

Geralmente, é um caminho sem volta. Você perde a relação com a profissão... Os poucos contatos que eu tinha no mercado eu achei que fossem me esquecer.”

Vista de Barcelona Blog Vem Por Aqui

Mas, na volta ao Brasil, ela conseguiu construir uma carreira. Chegou a chefe de sucursal da revista Veja, em Salvador, e também trabalhou na redação, em São Paulo. Mesmo feliz com o progresso, nunca esqueceu a vontade de morar fora.

Na época do boom da internet, pensou em estudar nos Estados Unidos e se aprofundar em edição eletrônica. Como os processos de inscrição nas universidades americanas eram muito demorados, e ela já estava desesperada para sair de São Paulo, mudou de estratégia.

Quem sabe eu não vou estudar seis meses de espanhol em Barcelona, que eu tanto gosto, depois vou para os Estados Unidos? E aí, deu no que deu, né? Eu tô aqui há mais de 15 anos.”

A mudança definitiva

Quando chegou na Espanha, em 2000, ela manteve o plano inicial. Estudou por seis meses na Escola Oficial de Idiomas Barcelona Drassanes.

Adriana, na chegada a Barcelona, há 17 anos, no Parc Guell

Há 17 anos, no Parc Guell

Passados os meses previstos, já sabia.

Nem a pau que eu vou embora!”

Então, decidiu encontrar outro foco de estudos.

Tinha aquela obrigação moral, aquela culpa judaico-católica de ficar aqui só no ‘bem bom’. Eu tinha juntado um bom dinheiro. Naquela época a Espanha era ainda mais barata, eram pesetas, com o dinheiro que eu tinha juntado dava pra ficar tranquilamente um tempinho.”

Escolheu um curso de História da Arte, que durava um ano, numa escola que não existe mais. Nesse meio tempo, curtiu sem grandes responsabilidades.

Tive uma adolescência tardia porque eu tava com uma vida muito séria no Brasil.”

Os trabalhos

Adriana aproveitou a farra, mas buscou fontes de renda. Trabalhou numa sorveteria, num bar, num restaurante…

Eu aprendi o catalão, basicamente, trabalhando num restaurante onde todo mundo era catalão, menos eu.”

Depois desse período, foi chamada pela jornalista Ruth de Aquino (que ela considera sua madrinha no Jornalismo) para trabalhar num projeto interessante da World Association of Newspapers.

Foto Acervo Pessoal Adriana Setti

Ela participou de um estudo da associação sobre convergência de mídias que procurava descobrir como os grandes jornais europeus estavam lidando com as novas tecnologias e se faziam (ou não) essa convergência.

Adriana ficou responsável pelos periódicos da Inglaterra, Suécia e Espanha. Entrevistou diretores e editores dos maiores veículos desses países.

Foi um trabalho que me tomou quase um ano, com imersões nessas redações... Foi fantástico! Depois disso, eu fiquei com vontade de voltar para o jornalismo de novo, daí, retomei os contatos que eu tinha no Brasil, comecei a ‘freelar’ e vivo disso.”

Ela já trabalhou numa agência de tradução e tem o blog, mas diz que ele não responde nem por 10% da sua renda. Seu principal sustento são os freelas (matérias e projetos específicos para veículos de comunicação. No caso dela, sobre viagens e para empresas brasileiras).

Adriana tomando uma cava na adega da Codorniu Blog Vem Por Aqui

Por experiência própria, posso dizer que, mesmo de freelas, só dá pra se manter fora do país se você tiver os contatos múltiplos da Adriana, for bastante experiente (para convencer pelo currículo e pelo portfólio) e falar várias línguas (já que é mais fácil fidelizar o cliente que sabe que pode contar com você em lugares diferentes).

A ilegalidade

Como era contratada por empresas brasileiras, a autora do Achados demorou a se preocupar com a legalização.

Eu fiquei ilegal durante quatro anos, coisa que eu não recomendo pra ninguém hoje em dia. Naquela época era bem diferente.”

Era mesmo. No começo dos anos 2000 a Espanha estava passando por um período de crescimento intenso. Sobrava trabalho e faltava mão de obra. Os empregadores contratavam muita gente sem documentos. No primeiro dia em que saiu para procurar emprego, Adriana já conseguiu.

Vista do alto do parque Guell

Hoje, além do excesso de pessoas desempregadas, as regras e a fiscalização ficaram muito mais rígidas. Quem contrata um ilegal, pode pagar multas gigantescas.

Quando eu fui, em 2011, o cenário já era muito diferente. Na minha sala do máster, de 25 alunos, só cinco tinham empregos fixos, e eles eram espanhóis.

Adriana diz ainda que, vira e mexe, desencoraja leitores em busca de conselhos. Mesmo o livro que escreveu em 2006, o De Mala e Cuia, com dicas para quem quer morar, estudar ou se divertir na Europa, está desatualizado nesse aspecto.

Muita gente ainda me escreve perguntando: ‘Ah, tô pensando em ir, mas não tenho documentos...’ e eu falo: ‘Gente, desculpe jogar um balde de água fria.’ Eu sempre fui uma grande incentivadora de falar ‘se joga, mesmo’, mas, hoje em dia, não dá.”

Ela cita dois exemplos como prova. O de uma prima que tem passaporte espanhol, fala espanhol e catalão fluentemente e estava lá há seis meses sem emprego, quando conversamos, e o de um amigo da prima, que foi sem documentação e passou tantos apertos que ficou sem dinheiro até para a passagem de volta.

Adriana deixou de ser ilegal num golpe de sorte. A avó é lituana e, na época, o país permitia dupla nacionalidade. Como a Lituânia entrou para a União Europeia em 2004, ela conseguiu resolver a situação.

Eu até, quando estava ilegal, tentei fazer meus papéis. O dono do restaurante que eu trabalhava teve boa vontade, mas as leis foram se fechando, fechando e não consegui. [...] Cheguei a receber uma carta tipo: ‘Não rolou, você tem tantos dias pra sair do país’. ”

O aviso foi solenemente ignorado, mas a Imigração nunca bateu na sua porta.

Apesar disso, ela afirma que, até para quem não precisa trabalhar, a situação é complicada. O imigrante corre o risco de ser deportado se sair do país quando o visto de turista estiver vencido.

A própria Adriana andou flertando com a deportação.

Eu passei por uma fiscalização na fronteira com a França. Eu, completamente ilegal, o cara olhou meu passaporte, ainda tirou gente do ônibus que estava ilegal, mas eu acho que ele me achou tão europeia visualmente que, não sei... O cara fez uma vista grossa pra mim inexplicável.”

Casa é onde o seu coração está

Como os pais e o irmão também se mudaram para a Espanha, Adriana não pensa mesmo em voltar.

Cássio e Adriana sorrindo numa foto em sépia Blog Vem Por Aqui

Com o marido, Cássio

Só que ela não nasceu com esse espírito cigano.

Eu sempre quis viajar, mas nunca imaginei que eu fosse morar fora, ainda mais assim, 'ad aeternum'. Eu lembro que quando algumas pessoas do colégio faziam intercâmbio eu falava: ‘Nossa, como é que ela consegue passar um ano fora, longe dos amigos, da família...’. ”

Depois que ela própria fez um intercâmbio na Califórnia, aos 15 anos, a visão começou a mudar.

Abriu mão de vários ‘luxos’ que tinha em São Paulo por uma vida simples em Barcelona, mas que, além de permitir esse estilo nômade, tem benefícios impossíveis em cidades brasileiras.

Orla de Barceloneta blog Vem Por Aqui

O primeiro, segundo ela, é a liberdade de ir e vir, a possibilidade de andar na rua a qualquer hora do dia e da noite sem se preocupar com a segurança. O segundo é a liberdade relacionada à mobilidade.

Eu costumo falar que em São Paulo a cidade é um obstáculo entre onde você está e onde você precisa ir. Aqui a cidade é sua amiga, né? Ela te abraça, ela joga a seu favor. Você vai em cinco minutos pra qualquer lugar em Barcelona a pé, de bicicleta, de ônibus... Nunca mais tive carro. Me orgulho de dizer isso! Faz 15 anos que eu não tenho carro, graças a Deus! E isso te dá uma liberdade!”

A diferença cultural é outra questão importante para Adriana. Ela reconhece que é possível ter uma vida mais simples e baseada em valores menos materialistas no Brasil, mas diz que na Europa esse é o padrão. Enquanto por aqui…

As pessoas se matam de trabalhar para ter aquilo que elas acham que têm que ter e todo mundo é muito igual. Alguns estilos de vida, além de difíceis de serem mantidos, são malvistos...”

Tanto que o título do texto mais famoso da Adriana é “Como a classe média-alta brasileira é escrava do ‘alto padrão’ dos supérfluos”. Segue o link. Recomendo demais a leitura.

Como os tempos são outros desde que a Adriana chegou a Barcelona, na coluna de hoje não vamos colocar o box com dados práticos para quem quer morar lá, mas se você tem dúvidas sobre custos e vistos, consulte esses posts abaixo.

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Comentários

  1. Martha lopes disse:

    Li um post seu adorável sobre Granada e as tapas gratuitas.
    Gostaria de ter uma dica de hotel por lá ou região.

    1. Érika Gimenes disse:

      Oi Martha!
      O blog da Adriana é o Achados: https://viagemeturismo.abril.com.br/blog/achados/. Escreva para ela por lá, tenho certeza , que ela vai adorar.

  2. JOSELY GOUSSAIN disse:

    Boa tarde, Adriana, costumo ler os seus posts e gostaria de ter pedir uma ajuda. Estarei em Barcelona no Reveillon com meu marido, um casal de amigos e a filha deles de 36 anos. Peço uma sugestão de restaurante para passarmos a noite do ano novo. Algo diferenciado e elegante. Agradeço a ajuda, Josely

    1. Érika Gimenes disse:

      Oi Josely,
      Tudo bem? O blog da Dri Setti é o Achados: https://viagemeturismo.abril.com.br/blog/achados/
      Escreva para ela por lá. Abs

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