Foto: Acervo pessoal Aline Soares
BeabáEuropa
30/11/2016 | Nenhum comentário

Como é o mestrado da Fifa

Conheci Aline Soares poucos antes da Copa de 2014. Nós duas trabalhávamos no Governo de Minas Gerais, ela na Secretaria de Esportes e eu na Superintendência de Imprensa. Logo em seguida, passamos um mês inteiro por conta de jornalistas estrangeiros no Mineirão. Pequena, com voz e jeito de menina, parecia aquela estagiária fofa de uma empresa qualquer. Mal sabia eu que ela já vinha com bagagem. Tinha trabalhado num jornal e assessorava a secretaria há algum tempo. Atuou na Copa das Confederações, sabia tudo sobre futebol. No dia a dia do Mundial, descobri que ela conheceu um suíço nos Estados Unidos e estava apaixonada. Perdemos contato quando saímos do governo, mas continuei acompanhando sua trajetória nas redes sociais. Não esperava menos dela quando soube que estava terminando um curso da Federação Internacional de Futebol (Fifa). O mestrado acabou em julho e é essa experiência que a Aline divide com a gente.  

Até março de 2014, o inglês dessa cruzeirense doente era bem meia-boca. Para corrigir a falha no currículo, ela aproveitou as férias e passou quatro semanas estudando nos Estados Unidos. Em Fort Lauderdale começou, sem saber, a trajetória rumo a uma vida no exterior.

Aline com a camisa do Cruzeiro e os alpes suíços ao fundo Blog Vem Por Aqui

Aline até pensava em fazer algum tipo de pós-graduação em outro país, mas ficou um pouco traumatizada com a distância da irmã mais velha, que fez dois intercâmbios. Ela chegou a ter até raiva desses ‘ladrões de brasileiros’, pensava:

Os países não podem nos tirar as pessoas que a gente ama.”

Teve a chance de ir para Portugal com um ex-namorado, mas recusou. Depois que passou um tempo por contra própria na terra do Tio Sam, tudo mudou. Além de traçar essa meta de estudar fora do Brasil, ela conheceu Marco, um suíço que veio visitá-la várias vezes e adiantou seus planos.

Eu pensava em passar a Copa do Mundo, continuar no projeto para as Olimpíadas e aí, depois das Olimpíadas, tentar esse mestrado.”

Pra não viver uma relação à distância, resolveu antecipar a partida. Começou a pesquisar e encontrou várias bolsas de estudo disponíveis, principalmente na Holanda. Leu sobre muitas pós-graduações, mas havia poucas focadas no Esporte. Encontrou uma em Liverpool, uma da AISTS, voltada pro Comitê Olímpico Internacional, e o mestrado da Fifa.

Banner de Belo Horizonte na Copa das Confederações e Aline Soares à frente com crachá Blog Vem Por Aqui

Quando trabalhou nas Copas, conversou com funcionários da Federação e teve contato com a head of Media da instituição, Delia Fischer, por isso, optou pelo último e se inscreveu em dezembro de 2014.

Exigências e formato do curso

O curso que a Aline fez se chama Master in Management, Law and Humanities of Sports (Mestrado em Administração, Leis e Humanidades do Esporte) e é organizado pelo Centro para Estudos Esportivos (CIES, na sigla em inglês). Além da Fifa, há uma parceria com três universidades: a Montfort University, de Leicester, na Inglaterra, a Boconni School of Management, em Milão, na Itália, e a University of Neuchâtel, na cidade de mesmo nome, na Suíça.

Livros e mateial de estudo do master com fichário aberto no pé da foto Blog Vem Por Aqui

As exigências para inscrição são: curso superior em qualquer área; inglês fluente com certificação pelo Toefl; experiência profissional de, no mínimo, um ano e envolvimento com o esporte. Tudo isso comprovado por documentos originais e traduções juramentadas. Os candidatos também devem enviar o passaporte, o currículo e uma carta de referência escrita por alguém que possa atestar as qualidades profissionais do interessado.

A duração é de 10 meses, com aulas de segunda a sexta, em período integral. Na época em que Aline fez o mestrado, houve apenas uma pausa de duas semanas entre Natal e Ano Novo, mais uma semana de folga na transição da Itália para a Suíça.

Os alunos passam, em média, três meses em cada país das universidades parceiras. Na Inglaterra estudam a história dos esportes. Na Itália as aulas são focadas em Administração Esportiva. Já na Suíça aprendem sobre as leis que regem esse universo.

Placa da universidade Bocconi, Aline em frente a uma bicicleta e três amigas tirando foto. Uma delas está fazendo uma selfie com o telefone Blog Vem Por Aqui

O curso custa 25 mil francos suíços (em torno de R$ 84.000). A entidade até costuma conceder bolsas, mas são apenas quatro por edição e, nem sempre, em valor integral.

Aline tentou, mas não conseguiu nenhum desconto. Ela diz que teve o azar de entrar num ano muito concorrido (eram 700 candidatos para 32 vagas) e com muitos interessados de países da África e da Índia, que foram priorizados.

O fato dela já ter tido contato direto com pessoas da Fifa e de ter mais experiência profissional no setor também contribuiu para que a jornalista fosse preterida. Na edição seguinte à dela, um brasileiro que ganhou 60% de desconto. Anteriormente, outra menina tinha conseguido 80%.

No site do mestrado eles explicam melhor o processo de seleção e afirmam que podem conceder até isenção total com auxílio para pagamento de despesas.

Com a ajuda da família e da madrinha, ela embarcou mesmo assim.

Aline diante de uma placa gigante indicando várias direções Blog Vem Por Aqui

Antes de ir, teve que driblar outro problema. Seu inglês melhorou muito desde que estudou nos Estados Unidos, mas Aline não possuía a certificação necessária. Para não perder a chance, escreveu uma carta para a direção do curso falando de suas experiências com a língua e garantindo que apresentaria o certificado antes do início das aulas. A exceção foi concedida e Aline partiu para um novo intensivo de duas semanas em terras americanas, onde tirou o certificado.

Ao longo do curso, os alunos têm que fazer um projeto, que será apresentado no final, em grupos de quatro pessoas. Os componentes da equipe são escolhidos pelos organizadores, com base nos continentes de onde vem e nas profissões que exercem. A ideia é mesclar o máximo possível.

Aline e os colegas do master Blog Vem Por Aqui

O mestrado começou em setembro de 2015. Em julho, ela se mudou para a Suíça para passar um tempo com o namorado. De setembro a dezembro, morou numa residência estudantil em Leicester. De janeiro a março, dividiu apartamento com duas colegas na Itália e, de março a julho, voltou para o apartamento do namorado. O casal vive em Lucerna, que fica na parte alemã, perto de Zurique, mas as aulas aconteciam em Neuchâtel, na parte francesa, perto de Genebra. Para conjugar a vida pessoal com os estudos, Aline enfrentava 1h50 de trem (com direito a baldeação) para ir e para voltar, todos os dias.

Aline e os colegas de mestrado e no alto a placa do The All England Lawn Tennis Club Blog Vem Por Aqui

Aline conta que havia pessoas de várias áreas no mestrado. Profissionais de T.I, advogados, ex-jogadores que estava trabalhando em clubes, funcionários da administração pública… A média de idade dos alunos era de 28 anos.

A melhor parte eram as visitas técnicas.

Na Inglaterra a gente foi no Manchester City. Fomos também no Manchester United. Em todos os times mais importantes a gente teve esses contatos. Aqui [na Suíça] a gente foi na Sauber, na Fifa, no Comitê Olímpico, na Federação de Basquete, de Motociclismo... Enfim, foi muito completo nesse sentido.”

O grupo também teve várias palestras com profissionais do mercado. O ex-jogador Leonardo (diretor de futebol do Paris Saint-Germain) foi um deles. Já o argentino Javier Zanetti (vice-presidente da Inter) queria se aprimorar e participou das visitas técnicas e de pesquisas, juntamente com os alunos.

Mosaico da turma do mestrado da Aline em atividades fora de sala de aula Blog Vem Por Aqui

Eles também receberam representantes de empresas ligadas ao mercado esportivo (como a Team Marketing, responsável pelos direitos de transmissão da Champions League), funcionários da Fifa e do comitê organizador da Copa do Catar.

Atletas como Sergei Bubka, Alexander Popov e Michel Platini já foram patronos de turmas do mestrado.

Visto

Aline conta que ser brasileira evitou a burocracia para morar temporariamente em dois países. Enquanto colegas da Ucrânia e da Índia precisavam de autorização para tudo, ela não necessitou de visto para a Inglaterra e para a Itália. No primeiro país, podia ficar até seis meses estudando sem visto. Já no segundo, teve exatamente os três meses que precisava.

Aline no estádio San Siro em Milão

No estádio San Siro, em Milão

Só quando foi para a Suíça, nos quatro meses finais do curso, é que Aline pediu o visto de estudante. Depois desse prazo, aproveitou os outros três meses em que poderia ficar lá como turista. Ela voltou ao Brasil, em outubro, para organizar a situação legal, mas em fevereiro retorna ao país.

A jornalista explica que teria direito a um visto de seis meses no final do curso, na condição de alguém que está procurando emprego. Só evitou essa alternativa porque seria obrigada a fazer um seguro de saúde determinado pelo governo, além de pagar outras taxas.

O sistema de saúde suíço é semelhante ao americano (expliquei como funciona nos Estados Unidos neste post aqui). Segundo Aline, o namorado dela paga 300 francos por mês pelo seguro, mas ainda tem que custear consultas e exames até atingir um limite de franquia (que pode passar de 2 mil francos).

Todo morador da Suíça é obrigado a pagar um seguro. O custo de vida no país também é alto. Dá pra juntar uma dúzia de reportagens como essa, da Swiss Info, que mostram que os valores por lá são dos mais elevados no mundo. Uma refeição simples num bar ou num restaurante popular custa mais de 25 francos.

O franco suíço está por volta de R$ 3,34 no momento. O Brasileiras pelo Mundo tem um relato de 2014 com preços de bens e serviços. O Gnomonique também fala sobre o tema.

Há compensações. Quando a cunhada da Aline fez uma cirurgia no ombro teve direito a receber duas profissionais em casa que fizeram a limpeza e a comida enquanto ela estava em recuperação.

Quem se casa com um suíço passa a ter a mesma prioridade dos locais ao pleitear uma vaga de emprego e também tem direito a um curso gratuito de alemão durante dois anos.

Dificuldades de adaptação

Um curso de alemão pode ser necessário, mas está longe de resolver os problemas de comunicação.

Essa é a minha maior dificuldade em morar aqui. [...] Às vezes eu deixo ligada a televisão em alemão, tento entender alguns contextos, mas o que eu acho muito difícil na Suíça é que eles não falam alemão, eles falam suíço-alemão, que é um dialeto. Então, o suíço-alemão nem existe dicionário, é uma língua falada, você escreve do jeito que você acha que é. Não tem nem jeito de você traduzir.”

Na verdade, o país tem quatro idiomas oficiais, o alemão, o francês, o italiano e o romanche (uma mistura de alemão com italiano). Apenas dois cantões falam esse último idioma e, de acordo com o escritório de turismo do país, a maior parte dos suíços (63,5%) falam alemão, só que nesse meio surgiu o dialeto que faz a Aline pirar.

O alemão é bem compreendido por todos, assim como há muita gente que fala inglês no país. Ou seja, o turista não costuma passar aperto por lá. Para aprofundar a relação com os amigos e a família é que é complicado. A sogra da jornalista, por exemplo, não fala inglês.

Isso me dá um pouco de desespero, de pensar que mesmo aprendendo a língua [o alemão] eles vão ter que mudar, para falar comigo, para outra língua.”

As diferenças culturais e de comportamento também exigem uma adaptação diária da Aline.

Eu acho que o que é mais diferente pra gente é que os suíços são muito reservados. [...] Tem certos tipos de perguntas que você não faz aqui. Por exemplo, um casal grávido anuncia para a família que está grávido depois de três, quatro meses. E eles não procuram saber sexo, então, se você pergunta o sexo do bebê, eles se sentem invadidos.”

Como ela cresceu numa família grande (tem seis irmãos) e de classe média brasileira, além do burburinho constante, se acostumou a uma vida com pouco protocolos. Já na Suíça, aprendeu que tudo é mais formal.

O jantar tem sempre entrada, prato principal e sobremesa. Na casa dos sogros enfrentou, pela primeira vez, uma mesa com vários talheres diferentes. Por lá, mesmo no dia a dia, os pequenos ritos são cumpridos. Todo mundo se serve primeiro, depois começam a comer juntos e, num determinado momento, param e brindam, olhando nos olhos uns dos outros.

Aline e o namorado, Marco Blog Vem Por Aqui

Aline e o namorado

Num festival de música ela estava na roda de amigos do namorado. Quando foi embora, se despediu de todos da mesma forma que eles faziam entre si, com três beijos na bochecha. Em seguida, ela percebeu que dois não estavam com uma cara boa e comentavam alguma coisa em suíço-alemão. Quando perguntou ao Marco o que era, ele disse que eles estavam criticando o fato dela ter se despedido com intimidade, apesar de nem conhecê-los direito.

Nesse ponto a família do namorado é exceção. Ela afirma que são todos muito carinhosos, mas, com estranhos, Aline se policia para não parecer muito próxima e nem tocar ninguém, mesmo sem querer.

A jornalista afirma ainda que, de maneira geral, os brasileiros sofrem pouco preconceito na Suíça. Povos do leste europeu são os alvos preferidos dos locais. Mesmo assim, já ouviu comentários ácidos, como da vez em que estava em outro festival, ao qual já havia ido anteriormente, e uma conhecida comentou que, ‘este ano, ela estava com uma roupa adequada’.

Uma curiosidade sobre a Suíça é que é muito comum os jovens fazerem apenas cursos técnicos, semelhante ao que acontece na Alemanha e foi explicado nessa reportagem. De acordo com Aline, isso contribuiu para que o respeito por ela aumentasse quando descobriram que ela estava fazendo um mestrado.

Em relação à saudade, ela diz que as novas tecnologias a mantém próxima da família.

Tudo é muito instantâneo, mandam muita foto, conversamos por Skype. Tem essa diferença de horário que é difícil também, mas você se sente muito presente.”

E tenta ver a parte boa da mudança.

Meus pais nunca saíram do Brasil e eu sei que, se não for por um motivo maior, eles não vão sair. Acho que eles nem têm tanto interesse nisso, mas eu sei que se eles saíssem iam ficar apaixonados. Então, eu sempre tento pensar que, se por um acaso eu ficar na Europa, esse lado positivo eu vou trazer pra minha família.”

Na prática – Mestrado da Fifa

Visto:  

Até 90 dias não é preciso nenhum visto especial, uma vez que os brasileiros podem circular livremente, durante esse período, em países que fazem parte do Acordo de Schengen.

Quem for ficar na Suíça por um tempo maior que esse tem que pedir um visto. O Swissando tem informações bem detalhadas sobre o visto de estudante.

O site da embaixada da Suíça em Brasília é um pouco labiríntico, mas também tem um PDF sobre toda a documentação exigida.

Curso – Master in Management, Law and Humanities of Sports:

* Pré-requisitos:  Formação universitária, fluência em inglês, experiência profissional de, no mínimo, um ano, envolvimento com o esporte

* Documentos exigidos (originais e tradução juramentada para o inglês)

Diploma de curso superior

Diploma de segundo grau

Certificado do Toefl

Carta de referência (do empregador atual ou alguém que possa atestar seu desempenho profissional)

Passaporte

Currículo

* Preço:

25 mil francos

Custos

* Passagem de avião

Belo Horizonte – Zurique (ida e volta) – a partir de R$ 3.100

* Hospedagem

Segundo o site do Conselho Brasileiro na Suíça, um quarto num hostel sai a partir de 35 francos.

Já o aluguel de um quarto mobiliado gira em torno de 400 francos.

Vi apartamentos de um quarto para alugar em Lucerna, no Homegate (um dos mais populares por lá) por volta de 800 francos.

* Seguro-viagem

Por um ano – pode variar de R$ 1.740 a R$ 11.000 dependendo da cobertura e da seguradora

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