Foto: Acervo pessoal Mariana Correa
Beabá
05/09/2016 | 8 comentários

Como estudar no Cordon Bleu

É o peso da história e a tradição da culinária francesa que atraem os amantes da gastronomia para o Cordon Bleu.  A escola, que existe desde 1895, tem filiais em 12 países: Austrália, Canadá, China, Coreia, Espanha, França, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Reino Unido, Tailândia, mas é a de Paris que povoa os sonhos de quem quer aprender técnicas clássicas.

Diploma da Mariana do curso feito no Le Cordon Bleu Blog Vem Por Aqui

No momento em que decidiu trocar o Direito pela Gastronomia, Mariana Correa começou a idealizar o dia em que chegaria ao Cordon Bleu.

Mariana Correa com um batedor na frente do rosto Blog Vem Por Aqui

Desde criança ela já perturbava a mãe, querendo espaço na cozinha para fazer doces. Por volta dos 14 anos, elas fizeram um acordo e toda sexta-feira era dia da Mari testar uma nova receita. No começo, replicava os doces das avós, depois, comprou livros e ousou nos pratos e nos ingredientes. Até a cozinha virar profissão foram longos anos.

Mariana adorava história e civilizações antigas e queria fazer Arqueologia. Como o curso não existia em BH, pensou de maneira pragmática, diante da vocação para Ciências Humanas, acabou elegendo o Direito. Uma escolha por falta de escolha, segundo ela.

Passou na UFMG, pensou em seguir carreira na Diplomacia, foi monitora de Direito Internacional, participou de seminários…

Lá pela metade do curso, a gente sente que tem alguma coisa errada. Não batia comigo, principalmente quando eu comecei a fazer estágio, eu vi que não era um ambiente
que eu queria, não era um ambiente em que eu me sentia bem. É claro que o Direito tem muita coisa bonita, muita coisa interessante, mas é triste. Você trabalha com os problemas das pessoas. Ninguém procura um advogado porque está feliz, e isso acabou me abatendo um pouco, eu não ia pra aula feliz, não ia pro estágio feliz. E eu tinha um pouco de fuga na cozinha.”

Quando estava no 8º. período, descobriu que a Estácio de Sá trouxe a faculdade de Gastronomia para Belo Horizonte e decidiu mudar de carreira. Como se esforçou muito para passar no vestibular de Direito, seguiu até o fim e saiu com o diploma em julho de 2010, mas em agosto já estava nas aulas de Gastronomia.

Mari na aula da Estácio de Sá Blog Vem Por Aqui

Ela até sabia da existência do curso profissionalizante do Senac, mas queria uma graduação e preferiu investir nos dois anos e meio na faculdade.

Foi um curso interessante, bastante incompleto. [...] Não era um curso ruim, mas acho que deixou a desejar em vários pontos. Era um curso novo, acho que a gente era a quinta turma...mas deu uma base legal pro Cordon Bleu.”

A escola francesa não exige nenhuma formação na área, apenas o Ensino Médio completo, ainda assim, a chef diz que a experiência é muito mais proveitosa para quem conhece a nomenclatura e as técnicas básicas.

Quando Mariana resolveu mudar de profissão, recebeu o apoio da família. O pai fez doutorado na França e teve aulas de culinária no período. Aliás, foi ele quem ajudou a expandir o paladar da filha. Com seis anos, Mari já tinha provado pato, rã, cordeiro…

Ele falava assim, você não tem que gostar de tudo, mas tem que experimentar. Então, esse é um pouco que um lema meu.”

A chef admite que precisou de muito mais que incentivo por parte dos pais para chegar ao Cordon Bleu. Ela juntou o dinheiro que ganhou em alguns trabalhos durante a faculdade, mas eles ajudaram a pagar o curso escolhido por ela, que custa € 49.200.

Mari fez o Gran Diplome, a formação mais completa oferecida pela escola. São 9 meses de aula com lições de Cozinha e Pâtisserie.

Mari e a turma numa das aulas do Cordon Bleu Blog Vem Por Aqui

Mari e a turma numa das aulas do Cordon Bleu

Quando faltava um ano para ela acabar a Estácio, começou a pesquisar e a cumprir as etapas para ir para a França.

A escola só exige que o candidato tenha mais de 18 anos, apresente o certificado de conclusão do Ensino Médio e uma carta de motivação, mas as vagas são limitadas. Há apenas quatro turmas anuais que começam em janeiro, março, junho e setembro.

Para evitar problemas na admissão e ter um apoio na obtenção do visto, Mari recorreu ao STB e pagou cerca de R$ 300 pela assessoria.

Se você quer se virar por conta própria, acesse esse post para saber como é o processo para conseguir o visto de estudante na França.

Mariana fez francês durante cinco anos antes de morar em Paris, ainda assim, passou aperto no começo para ser compreendida.

Todas as lições do curso são divididas entre Demonstrativa e Prática.

Aula demonstrativa de prato com rã Blog Vem Por Aqui

Aula demonstrativa com rã

Na Demonstrativa há tradução simultânea para o inglês. Como a Prática não é traduzida e boa parte dos chefs não falam inglês, é importante conseguir se comunicar na língua deles.

Eu gostei muito, achei o sistema muito legal. A gente tinha aula no auditório, que era a aula demonstrativa, com todo mundo. O chef fazia lá na frente, na bancada, e a gente tinha o fichário com todas as receitas, só que as receitas só tinham as quantidades, a gente tinha que anotar o modo de fazer, então, isso te prendia a atenção.”

Mari estudava de segunda a sábado, algumas vezes, de 8h às 22h.

Mari e uma torre de profiteroles Blog Vem Por Aqui

O resultado depois de uma aula de mais de 12 horas

Ela diz que gastava pouco com alimentação porque os alunos podiam comer tudo que faziam na escola e ainda levar as sobras para casa.

No primeiro dia de aula eles receberam o kit com o uniforme e todo material de cozinha, que é tão bem completo, que está avaliado em € 10.000. A única parte do vestuário que os alunos têm que comprar são os sapatos.

Uniforme da escola Blog Vem Por Aqui

Ela alugou um apartamento perto da escola com a ajuda do próprio Cordon Bleu, que passa uma lista com nomes e os contatos de imobiliárias, hostels e casas de famílias que alugam quartos.

Mari nos primeiros dias em Paris com o pai e o irmão Blog Vem Por Aqui

Mari nos primeiros dias em Paris com o pai e o irmão

A chef nunca tinha morado sozinha antes de ir para Paris e o pai dela passou os primeiros 15 dias por lá para ajudá-la na adaptação.

Foram muitas coisas diferentes, mas eu não vejo nenhum diferente ruim. Eu estranhei no sentido bom, eu me surpreendi. Assim que meu pai foi embora, que eu percebi que eu estava sozinha, foi um momento muito assustador para mim porque eu sou uma mulher, morando no outro lado do mundo, sozinha, tenho que sair de casa cedo, volto pra casa depois das 22h. A gente tem aquela mentalidade de brasileiro [...] O primeiro dia que eu voltei da aula, era umas 23h, eu tremia. [...] Tirar essa aura de pavor demorou mais ou menos um mês, um ou dois meses pra eu entender, ´não, eu posso andar´. Me surpreendi muito porque nenhum homem te olha na rua, ninguém te canta.”

O curso tem normas bastante rígidas para avaliação. Só são permitidas três faltas durante todo o período, justificadas ou não, e quem falta a uma aula demonstrativa, não pode participar da prática. Entre um módulo e outro os alunos têm cerca de uma semana de férias.

Tortas feitas durante a aula Blog Vem Por Aqui

As aulas práticas funcionam como se fossem a cozinha de um restaurante, com um tempo pré-determinado para entregar cada prato. Cada um é avaliado pela disciplina, organização, limpeza e agilidade e eles recebem notas pelo mise en place (o pré-preparo), a apresentação e o sabor.

Turma da Mariana Blog Vem Por Aqui

As turmas são compostas por nacionalidades e perfis variados. Na da Mariana tinha desde uma russa de família milionária, que estava lá só pra passar o tempo; a uma menina de 18 anos, colombiana, que estava fazendo o curso como primeira graduação; um chef coreano muito famoso e um equatoriano dono de uma empresa de panificação.

Como a profissão está na moda e vários programas de culinária passam uma ideia glamourizada do que é ser chef, é fácil ver alunos deslumbrados caindo na decepção.

Tem os chefs-estrelas, mas a realidade de 99% é completamente diferente. A gente trabalha 12, 14, 16 horas por dia e a maioria, aqui em Belo Horizonte, não ganha mais de R$ 2.000. A minha turma na Estácio tinha 50 alunos, sobraram 15.”

A Veja Rio fez até matéria sobre a evasão alarmante em cursos de Gastronomia. Ou seja, pense bastante e faça experiências por aqui antes de ir se iludindo com o Cordon Bleu.

Para Mari a experiência foi inesquecível e o esforço foi recompensado com as medalhas que ganhou por ficar entre os cinco melhores da turma, tanto em Cozinha, quanto em Pâtisserie.

Mariana e as medalhas que ganhou no fim do curso Blog Vem Por aqui

Muitos colegas dela conseguiram estágios no fim das aulas. Como Mariana deixou o noivo no Brasil e já estava com o casamento marcado, voltou para seguir com a vida pessoal.

Mari e o marido no dia do casamento Blog Vem Por Aqui

Mari e o marido, no dia do casamento, pouco depois de voltar de Paris.

Assim que chegou, ela trabalhou como consultora para a sorveteria Alessa e acabou assumindo a cafeteria da casa.

Mari também se inscreveu no concurso de uma pâtisserie famosa de Paris, a L´Éclair de Genie. Cada candidato podia enviar quantas receitas quisesse. Ao todo eram trezentos participantes. Mari inscreveu oito sabores diferentes e foi selecionada entre as 10 receitas que iriam para votação popular. Sua éclair de caipirinha levou o prêmio.

Eclairs da L´Éclair de Genie Blog Vem Por Aqui

Mari voltou a Paris com tudo pago, conheceu a fábrica, o chef Chris Adam e ainda ajudou a vender algumas de suas obras.

O chef Christophe Adam e Mariana Correa Blog Vem Por Aqui

Com o proprietário da L´Éclair de Genie, Christophe Adam.

A essa altura do campeonato, Mariana estava ainda mais apaixonada pela confeitaria francesa e não via a hora de trazer doces clássicos e novas perspectivas para o mercado de Belo Horizonte.

Pro pessoal conhecer o que é a confeitaria de verdade, que existe mundo além do leite condensado, que a quantidade de açúcar pode ser um terço da que a gente usa...”

E foi daí que nasceu a La Parisserie.

Macarons da La Parisserie Blog Vem Por Aqui

Quem quiser provar as delícias da Mari tem que encomendar com, pelo menos, uma semana de antecedência.

Doces da La Parisserie Blog Vem Por Aqui

Por enquanto a marca não tem espaço físico. Ela ainda não sabe o que o futuro reserva para o negócio, mas já consegue um salário maior do que recebia no primeiro emprego depois da volta ao Brasil.

Na prática

Visto:

– Os interessados têm que fazer um cadastro na internet e enviar a cópia da documentação exigida para Agência de Promoção do Ensino Superior Francês (Campus France), em São Paulo. Os consulados NÃO analisam pedidos de visto que não passarem por esse processo. Estudantes que não estão num programa de intercâmbio têm que fazer uma entrevista. A pré-avaliação custa R$ 400 e não garante a obtenção de visto. Quando o Campus France finaliza a análise do ‘dossiê”, o candidato pode dar início ao pedido de visto no consulado. A marcação é feita pela internet e o procedimento custa € 50.

*** Quem mora em Belo Horizonte tem que passar por uma entrevista prévia no consulado honorário antes de dar início ao pedido no consulado do Rio de Janeiro. 

– Documentos exigidos para a concessão de visto de estudante:

  • Formulário de pedido de visto de longa duração devidamente preenchido e assinado
  • 2 fotos 3,5 x 4,5 ou 3 x 4 recentes, com fundo branco e sem data
  • Certidão de nascimento com tradução
  • Passaporte com pelo menos 1 ano de validade, (cópias das páginas contendo dados pessoais)
  • Comprovante de residência no Brasil
  • Número identificador do Campus France
  • Carta de aceite do curso (com o período letivo). Em caso de cursos de línguas eles costumam exigir o comprovante de pagamento integral, que a carga horária seja acima de 20h semanais e que a escola seja reconhecida pelo Ministério da Educação francês.
  • Cópia do último diploma – podendo solicitar ainda o original e o histórico escolar
  • Comprovantes financeiros do solicitante ou carta de responsabilidade financeira familiar de um mínimo de € 615 mensais (com reconhecimento de firma no cartório do responsável financeiro). É preciso levar os três últimos contracheques, a declaração de imposto de renda e de aplicações do solicitante ou do familiar que assinar a declaração.
  • Comprovante de residência na França: confirmação da residência universitária ou o contrato de aluguel. Quem for se hospedar na casa de conhecidos tem que levar a carta de acolhimento, o comprovante de residência do responsável, a cópia da identidade ou do passaporte e, no caso de estrangeiros, a cópia do “titre de séjour”
  • Seguro de viagem internacional (com cobertura total de € 30.000).

***Vale lembrar que quando consulados falam em cópias ou em traduções, estão se referindo a cópias autenticadas e traduções juramentadas.

Todo o procedimento do visto pode demorar mais de três meses. Uma vez concedido o visto, o estudante tem três meses, depois que chegar na França para procurar o escritório de imigração da cidade e conseguir a residência temporária.

Para matrícula no curso:

O Cordon Bleu exige apenas que o candidato seja maior de 18 anos e tenha concluído o Ensino Médio, mas é preciso enviar uma cópia do diploma, juntamente com uma carta de motivação. As vagas são limitadas. Há apenas quatro turmas por ano que começam em: janeiro, março, junho e setembro. A duração do curso é de nove meses.

Custos

* Passagem de avião

Belo Horizonte – Paris (ida e volta) – média de R$ 2.600

* Curso

Gran Diplôme: € 49.200 (inclundo taxas, uniforme e material)

* Seguro saúde

Com validade de seis meses – pode variar de R$ 2.200 a R$ 11.000 dependendo da cobertura e da seguradora

* Outros custos

Os blogs Morar em Paris e Viver em Paris têm posts explicativos sobre o custo de vida na Cidade Luz.

Amanhã a Mari traz dicas imperdíveis de Paris. Não perca! E se você quer estudar fora do país, mas não pretende fazer Gastronomia, veja outras opções nos links abaixo.

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Comentários

  1. Edelves disse:

    Muita, muita emoção! Especialmente para quem acompanha essa Chef desde que ela decidiu respirar neste mundo…

    1. Érika Gimenes disse:

      Orgulho pra lá de merecido!

  2. Kathlen disse:

    Meu nome é Kathlen Rodrigues da Cruz de Oliveira, tenho 17 anos. Moro no Rio de Janeiro, em Duque de Caxias, meu sonho é estudar na Le Cordon Bleu. Meu sonho é estudar gastronomia, e tenho fé que um dia entrarei na Le Cordon Bleu!

    1. Érika Gimenes disse:

      O primeiro passo de tudo, Kathlen, é acreditar. Toda sorte do mundo pra você!

  3. Phillipe disse:

    Olá, parabéns pelo excelente artigo! As dicas são ótimas, sem falar das experiências e fotos. Tenho apenas uma dúvida: é possível trocar o visto de estudante pelo de assalariado ao término de um curso no Le Cordon Bleu caso a pessoa encontre um trabalho antes de terminar o curso?

    1. Érika Gimenes disse:

      Oi Phillipe, vou pesquisar para você e coloco a informação aqui assim que tiver. Abraços

    2. Érika Gimenes disse:

      Oi Philippe, pelo que eu andei pesquisando não há essa possibilidade de ´troca´de vistos. Seu empregador teria mesmo que te auxiliar a conseguir um visto de trabalho. Até tentei encontrar informações sobre a possibilidade de uma prorrogação de visto de estudante para conclusão de estágio, mas imagino que não é isso que te interessaria, já que esse processo seria por um período curto. O que há, que é muito vantajoso na França, é a possibilidade de trabalhar com visto de estudante e também a possibilidade do chamado ´visto mochileiro´, permissão de trabalho para quem está viajando o mundo. Procure o consulado mais próximo da sua casa porque eles são bem atenciosos e, em geral, respondem detalhadamente todas as perguntas. Seguem alguns links que podem te ajudar:
      http://saopaulo.ambafrance-br.org/-Portugues-
      https://www.jafezasmalas.com/trabalhar-na-franca/
      http://blog.descubraomundo.com/franca/visto-mochileiro-franca/

  4. Phillipe disse:

    Olá Érika, muitíssimo obrigado pela sua resposta e por todas as informaçòes. Elas são bastante úteis! Abraços

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