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25/10/2016 | Nenhum comentário

Gentileza em viagens

Vou perder um evento lindo que começa amanhã em Belo Horizonte, mas não ia deixar passar a inspiração trazida por ele.

Cartaz do Festival da Gentileza, com data, local e promotores no texto e céu azul com ipê rosa à frente Blog Vem Por Aqui

Entre os dias 26 e 30/10 a capital mineira vai sediar o Festival da Gentileza, com cinco dias de atrações gratuitas no Circuito da Liberdade (entorno da praça de mesmo nome que fica na região da Savassi).

O ponto alto é a inauguração do painel Before I Die, da artista chinesa Candy Chang.

Mosaico de fotos do Before I Die em quatro cidades diferentes e a capa do livro Blog Vem Por Aqui

A obra também tem um perfil viajante. Foi recriada em 70 países e virou livro, mas nasceu na parede de uma casa abandonada em Nova Orleans, depois que Candy perdeu uma pessoa querida.

Mosaico com a casa em Nova Orleans e Candy grafitando o mural embaixo Blog Vem Por Aqui

O festival é uma das iniciativas promovidas pelo Verbogentileza, movimento que quer melhorar relações humanas, incentivando comportamentos gentis.

Cartaz do Verbogentileza dizendo O Mundo Precisa de Gentileza

Por isso perguntei a alguns dos meus entrevistados se a gentileza já ajudou a salvar ou melhorar alguma viagem e encontrei muitas histórias bacanas:

Aline Soares – jornalista. Está morando na Suíça e acabou de fazer um mestrado Fifa

A Aline estava fazendo um intercâmbio de inglês em Fort Lauderdale quando resolveu ver um jogo de basquete em Miami. Ela partiu para a cidade vizinha de trem, com um colega da escola de idiomas. Na volta, passou um aperto danado quando chegou à estação por volta de 19h30 e descobriu que o próximo trem saia apenas às 23h. O problema é que o lugar não tinha nada, nem lanchonete, nem banheiro e nenhum comércio por perto.

“Sempre que eu fico muito tempo sem comer eu tenho queda de pressão, aí eu desmaio. E a gente só tinha comido no intervalo da partida, tipo 16h.”

Um grupo de holandeses estava perto da Aline e do amigo. Eles perceberam que ela não estava muito bem. Como tinham pedido uma pizza por telefone, já começavam a comer, mas puxaram papo com os brasileiros, ofereceram a pizza e um deles ainda foi com a Aline até o AirBnb em que ele estava hospedado para que ela usasse o banheiro.

Eu fiquei muito feliz, não esperava, foi uma surpresa!”

Carine Tavares – jornalista. Fez a primeira viagem internacional com 15 anos, a segunda aos 26, a terceira aos 30 e não parou mais. Nos últimos seis anos conheceu nove países.

Enquanto estava viajando por Portugal, Carine contratou os serviços do Pedro Silva, da All Ways Private Tours, para passear por algumas cidades menores. Ela se despediu dele no dia anterior à partida para o Brasil e se preparou para embarcar com a mãe, a filha e uma amiga da família. O problema é que o voo foi antecipado sem que elas fossem avisadas e o grupo ficou sem saber o que fazer, já que não recebeu a assistência devida da companhia aérea. Carine encontrou o Pedro no saguão e ele se colocou à disposição para ajudar, mas tinha que levar outros clientes para um passeio.

Elas resolveram voltar para o mesmo hotel em que estava hospedadas.

Ao conversar com o atendente e contar a história, ele disse que já tinha sido avisado da nossa chegada. A empresa do Pedro ligou para o hotel e os preveniu de que o nosso grupo precisaria de quartos. Nossa, foi um alívio e um acolhimento tão grande!”

Carine ainda teve que esperar dois dias para pegar um novo voo.

“Nesses dias, Pedro nos levou para cidadezinhas lindas e nos ajudou a tentar esquecer a perda do voo. Hoje somos amigos e indico sempre os serviços dele. Não vejo a hora de reencontrá-lo e levar a camisa do Galo, conforme prometido!”

Como sempre vale a pena propagar pessoas, empresas e atitudes gentis, seguem os contatos do Pedro:

Site: http://www.allwaysprivatetours.com/

Facebook: https://www.facebook.com/pedrotdriver?fref=ts

Telefone: +351 912 821 881

Cris Guerra – publicitária e escritora. Autora dos blogs Para Francisco e Hoje Vou Assim.

Cris vive viajando pelo Brasil para dar palestras. Recentemente, esteve no Nordeste, promovendo o livro que escreveu em parceria com a jornalista Leila Ferreira, Que Ninguém nos Ouça.

O evento foi promovido pelo Clube do Livro do Maranhão e, como Leila não pode viajar, Cris estava sozinha. Os organizadores colocaram uma pessoa à disposição, para auxiliá-la, mas a escritora diz que a Nara não só desempenhou o papel, como envolveu a família na atividade. Eles a levaram para passear e conhecer pontos turísticos.

A maneira como eu fui recebida foi muito bonitinha. Ficou um afeto lá no Maranhão. Isso acontece muito comigo. Tipo: ‘Olha, agora você tem um lugar pra ficar aqui no Maranhão.’ É muito legal, porque você se sente muito acolhida. Esse acolhimento não tem preço!”

Érika Schunk – engenheira de produção – já morou no Chile e agora está vivendo com a família em Miami

No caso da Érika, a gentileza que ficou marcada aconteceu na volta de uma viagem. Depois de tirar uma licença não remunerada para fazer um máster durante um ano e meio no Chile, ela retornou à Curitiba, para assumir um novo cargo na empresa.

“Eu tinha um dia para aprender tudo com a pessoa que fazia a minha função. A gente ia se encontrar nem por um dia, porque às 16h ela tinha um compromisso e precisava ir embora.”

Enquanto recebia aquela descarga de informações, foi batendo um desespero.

Eu ainda estava super fora de ritmo. E todo mundo frenético, correndo, e, nossa, eu estava perdida! Teve uma hora em que eu fui pro banheiro. Fui pro banheiro e fiquei lá, olhando. Acho que eu lavei o rosto, fiquei assim, travada. Aí chegou uma menina que eu não conhecia, a secretária, e disse: “Vem aqui, me dá um abraço!” E me deu um abraço. Eu comecei a chorar, né?  E vou chorar de novo (risos). Ela falou assim: “Olha, vai dar tudo certo. Eu sei que tá meio esquisito agora, que tá meio confuso, e tal, mas, fica tranquila que vai ficar tudo bem. Claro que depois a cabeça vai engrenando, mas foi ótimo, super me ajudou!”

Karin Tokarski – administradora – deixou o Brasil para morar em Nova Iorque, onde estuda inglês e se aprimora como professora de Ioga.

Com a Karin, uma atitude gentil teve uma recompensa quase invisível aos olhos de outras pessoas. Ela me disse que, apesar de estar fora há quase dois anos, ainda sente muita saudade dos amigos, da família e dos sobrinhos (próprios e postiços – filhos das amigas). Num desses momentos de coração apertado, veio a gentileza.

Peguei um trem e tava lá fazendo as minhas coisas. Na minha frente, sentou uma mãe com duas crianças e o trem parou, parou totalmente, não tinha previsão de voltar. Eu tava escrevendo num caderninho, aí a menininha, de uns cinco anos, começou a ficar perto de mim, porque ela gostou da minha caneta... Conclusão, eu comecei a conversar com a mãe e a gente ficou parado ali uns 15-20 minutos. Daí, as crianças ficaram desenhando comigo. Nós mudamos de trem. Entre mudar de trem, mudar de estação, caminhar, ficamos juntos uns 50 minutos. Quando chegamos na estação deles, a menina ficou me abraçando no trem, eles desenharam pra mim, ela queria me ensinar alemão. Ela não falava inglês, a mãe ficava traduzindo. Me desenharam no papel e colocaram o nome. O nome dela era Flor. Coisa mais querida! Em 50 minutos ficamos velhos amigos. Sabe aquela coisa que você fica assim: O que é que é isso? O que é que tá acontecendo? Em Nova Iorque ninguém olha pra cara de ninguém. Foi uma das coisas mais bonitas! Voltei chorando porque foi um presente.”

Até hoje ela guarda os desenhos dos pequenos.

Marco Pomarico – publicitário e fotógrafo. Já morou em Portugal, Barcelona e passou um ano rodando países da Ásia.

Visitando Sortelha, uma cidadezinha no interior de Portugal, o Marco conheceu uma senhora, que era como uma embaixadora cultural do lugar. A mulher é dona de duas pousadas e pertence à família real espanhola. Marco estava hospedado numa das pousadas.

Ela é muito carente, ou era, eu nem sei se ainda está viva...Então ela me chamou pra casa dela, conversou, mostrou a cozinha maravilhosa, supermedieval, aqueles caldeirões gigantes.”

Em outra ocasião, ele voltou para fotografar a cidade para uma matéria da revista Viagem e Turismo. A reportagem quase fez a senhora se arrepender da gentileza. É que o texto dizia que Sortelha nem estava no mapa, como se fosse um elogio, ressaltando que era um lugar secreto, pouco explorado. Ela não entendeu desse jeito. Mandou uma carta para a redação da revista, reclamando do comentário e insistindo que ‘Sortelha está no mapa, sim!’. Depois dessa, Marco preferiu recordar sua anfitriã com carinho, mas à distância.

“Não tive nem coragem de voltar lá, eu fiquei com medo de qual seria a reação” – diz, morrendo de rir.

Até pensei em contar alguma história minha, mas em matéria de gentileza, sou privilegiada. Conto frequentemente com a bondade de pessoas estranhas e conhecidas e com gestos despretensiosos que realmente mudam o meu dia. Não sei se consigo retribuir ao universo à altura. O lance é seguir tentando, né, não?

A Rádio Itatiaia também tem um projeto bacana sobre o assunto. O Pratique Gentileza divulga atitudes positivas por aí.

Isso sem falar na onda provocada por um profeta das ruas do Rio de Janeiro. José Agradecido, ou Gentileza, podia ser louco e até agressivo como dizem alguns, mas suas palavras ainda servem de inspiração para quem passa pelos viadutos da Cidade Maravilhosa.

Viaduto do Rio com frase pintada pelo profeta Gentileza

Confira a programação completa do Festival da Gentileza aqui. E veja outras histórias de alguns desses entrevistados nos links abaixo.

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