Foto: Érika Gimenes
BalaioEuropa
05/04/2018 | 4 comentários

Hospedagem em casa de família

Quando a Central do Estudante me propôs uma parceria para fazer um curso de inglês no Reino Unido, me empolguei de imediato com a ideia. Há tempos queria passar por uma experiência como essa e a proposta veio numa hora boa.

A bandeira vermelha só foi levantada quando descobri que a hospedagem era em casa de família.

O problema é que, apesar de toda minha bagagem em viagens e do tempo em que morei no exterior, ainda não me livrei de alguns preconceitos comuns à maioria dos brasileiros.

Enquanto em países europeus é normal desconhecidos dividirem apartamento e famílias de várias classes alugarem cômodos para estudantes, vemos tudo isso com muita desconfiança.

E não é só pela violência comum no nosso cotidiano. Já ouvi gente dizendo que era contra esse tipo de hospedagem pelos motivos mais variados. Medo de encarar um lugar sujo, hábitos muito diferentes, pessoas invasivas…

Se temos receio até de banheiro compartilhado, imagina estar na casa de estranhos.

A questão é que esse método não é apenas o mais barato, mas também é o melhor para quem quer praticar o novo idioma no dia a dia.

Como funciona

Existem vários formatos possíveis, com e sem refeições incluídas, em quarto individual ou compartilhado. A maioria prevê café da manhã e jantar, porque a ideia é que você se sente à mesa com seus anfitriões e tenha chance de falar sobre questões banais e de ordem prática, exercitando o que está aprendendo (ou aprimorando) na escola.

Quem hospeda é que escolhe quem quer hospedar e por quanto tempo. Os hóspedes não podem fazer exigências, mas devem indicar restrições alimentares ou problemas de saúde que demandem atenção específica.

Prato com sanduíche cortado em dois triângulos e duas salsichas ao lado. No fundo, copo de suco de laranja Blog Vem Por Aqui

Sanduíche de bacon no café da manhã preparado no fim de semana pela minha família de Brighton

Os processos variam de instituição para instituição. No ELC, escola de Brighton e Eastbourne onde estou estudando, os responsáveis pelo setor de acomodações visitam as casas (para garantir que o espaço oferecido é adequado) e fazem uma entrevista com os candidatos a anfitriões.

Placa com o nome da escola escrito menor em cima e repetido abaixo com a frase since 1962 no final Blog Vem Por Aqui

A configuração mínima do quarto deve prever:

– Cama

– Cadeira e mesa para estudos

– Armário ou cabideiro para pendurar roupas

– Cabides à disposição

– Toalha e roupa de cama (que devem ser trocadas toda a semana)

Eles também estabelecem regras de convivência e advertem os alunos sobre costumes locais:

– Você vai receber uma chave da casa, mas os quartos, normalmente, não têm chave

– Desligue as luzes e aquecedores ao sair

– Pergunte ao seu anfitrião qual o melhor horário para o banho e deixe o banheiro organizado e limpo depois de usar

– Suas roupas podem ser lavadas uma vez por semana (fica a cargo do anfitrião decidir se ele vai ser responsável pelo processo ou você)

– O café da manhã, geralmente, inclui: cereais, torrada, geleia, leite, chá ou café

– Sempre avise ao seu anfitrião quando não for jantar ou for se atrasar para a refeição. Se o hóspede chegar depois de 20h30, pode ser fornecido apenas um prato frio (como sanduíche ou salada)

– Normalmente, não é permitido que uma casa receba dois alunos da mesma nacionalidade (a não ser que seja um pedido expresso dos mesmos)

– Os hóspedes são responsáveis por arcar com qualquer dano que causarem na casa

– Quem for viajar por mais de uma semana pode avisar ao departamento de acomodação com sete dias de antecedência e tentar entrar num acordo para pagar apenas 40% do valor no período da viagem, assegurando a vaga.

Além de esclarecer todos os detalhes, o ELC também é conhecido pelo cuidado com quem ‘casa’ as hospedagens e a atenção que dá aos clientes dos dois lados.

Sempre que possível, eles tentam integrar pessoas com hábitos e gostos semelhantes. Minha primeira hostess era uma consultora de Comunicação, que também apresenta um programa de rádio sobre comida e bebida. Uma colega vegetariana está com uma família que trabalha com projetos envolvendo produtos orgânicos e práticas sustentáveis. A filha mais nova do casal segue o mesmo tipo de alimentação.

A escola envia os perfis dos alunos para os anfitriões e aguarda o ok deles para passar os dados ao estudante. O normal é que você receba essa informação faltando poucos dias para a viagem (cerca de uma ou duas semanas antes).

Imagem do email com os detalhes sobre a hospedagem, data de entrada e saída, endereço e telefone (cobertos com um mosaico na imagem) e um breve resumo sobre a família Blog Vem Por Aqui

A partir daí, o hóspede tem que escrever para o anfitrião combinando os detalhes da chegada.

Brighton

Se gentileza gera gentileza, eu devo estar sendo muito gentil por aí. Tive sorte nas duas acomodações em que fiquei.

Em Brighton encontrei um quarto bem espaçoso na casa de Karen Morton.

Quarto com cama, mala do lado, sofá, mesa diante do sofá e cabideiro Blog Vem Por Aqui

Ela e o filho de 21 anos, Niall, me receberam de braços abertos.

Karen, Érika e Nial abraçados, em pé, sorrindo, de frente para a câmera Blog Vem Por Aqui

Karen é consultora de Comunicação, especializada em treinamentos corporativos, e também apresenta o The Food and Drink Show, na rádio Reverbe.

Karen com fones de ouvido, sentada no estúdio da rádio, diante do microfone Blog Vem Por Aqui

Quando o filho mais velho foi morar com a namorada, decidiu aproveitar melhor o quarto vazio:

Gosto da ideia de ter gente em casa. Quando os meninos estavam crescendo, a casa estava sempre cheia, então, eu sinto um pouco de falta disso.”

Enquanto muitos dos seus amigos trabalham com várias agências ou alugam seus quartos pelo AirBnb, Karen decidiu ir mais devagar e procurou, segundo ela, a empresa com melhor reputação na cidade. Foi assim que chegou ao ELC.

Eles são flexíveis, justos e amáveis no trato.”

O primeiro hóspede de Karen foi um estudante francês. Eu fui a número dois e, após a minha saída, ela já esperava uma alemã.

Como, às vezes, viaja a trabalho, Karen prefere alunos maiores de idade e que não fiquem por períodos muito longos.

Fui tratada com o maior carinho possível. Ela se esforçou o tempo todo para me trazer informações para o blog, me colocou em contato com pessoas importantes para a minha atividade (como o pessoal da Brighton Food Tours) e me convidou para eventos sociais com sua família, amigos e o namorado.

Mosaico com fotos dos eventos de que Érika participou. Primeira com a família e um amigo de Karen, depois prato de burrata, abaixo prato com azeitona e espumante, a última tem um amigo e uma amiga de Karen, o namorado, ela e Érika Blog Vem Por Aqui

Ao mesmo tempo, sempre respeitou meu espaço e me deixava à vontade em sua casa.

Como ela adora cozinhar, tive pratos variados. Nas três semanas em que fiquei por lá, não repetimos nenhum cardápio e ainda fui brindada como um farto almoço de Páscoa, com direito a ovo e tudo, no final.

Mosaico com fotos de comidas. Na primeira o prato tem um frango empanado, um milho espetado num utensilio especial para isso e uma caneca cheia de batatas. Na segunda temos sobremesas, como uma torta de maçã, um prato com morangos cortados e uma travessa com profiteroles com calda de chocolate. Na terceira temos uma travessa com carne, outra com batatas e outra com Yorkshire Pudin Blog Vem Por Aqui

Em troca, levei algumas lembrancinhas do Brasil para eles e aproveitei para fazer um jantar brasileiro regado a caipirinhas.

Mosaico com três fotos, na primeira, panela com camarão e outro com arroz, em cima do fogão, na segunda os ingredientes e na terceira prato com brigadeiro Blog Vem Por Aqui

Quem não sabe fazer feijoada, caça com camarão ao leite de coco e brigadeiro…

Eastbourne

Na minha última semana, em Eastbourne, fui acolhida por um casal com habilidades artísticas, que tem quadros espalhados por toda casa e fez questão de me dar um cômodo maior do que o que alugam normalmente porque, como passamos por uma frente fria, queriam que eu tivesse o melhor aquecimento possível.

Cama com colcha dobrada na metade e travesseiro, ao fundo porta do quarto com roupão pendurado e quadro na cabeceira Blog Vem Por Aqui

Leia e Mike recebem estudantes há cinco anos e já tiveram todo tipo de experiência. Do eslovaco que não falava quase nada de inglês e voltou fluente para casa, ao suíço que vivia trancado no quarto.

Japoneses, russos, uma uruguaia, um afegão… A bagagem é tanta que a mensagem de boas-vindas foi traduzida para 10 idiomas.

Quatro imagens da mensagem de boas-vindas num mosaico. Na primeira em inglês, na segunda em alemão, na terceira em checo e na quarta em japonês Blog Vem Por Aqui

Ela é administradora e trabalha no órgão do governo local responsável por adoções.

Leia, senhora de olhos azuis e cabelo cacheados brancos, com as mãos para trás da cabeça, sorrindo para a câmera Blog Vem Por Aqui

Ele é jardineiro, faz paisagismo para várias casas da região.

Fui recebida com um jantar especial e outro ovo de Páscoa (eeeeebbbbba!!!).

Mesa com travessas com vegetais e frango e, ao fundo, caixa com ovo de páscoa Blog Vem Por Aqui

Quando fiquei gripada, logo no primeiro dia, eles me ofereceram todo tipo de ajuda. De xarope para tosse a sopa, já que eu não quis jantar.

Isso sem falar nos adaptadores, no mapa com as marcações da casa e da escola e no secador de cabelo que já deixam disponíveis para os hóspedes.

Para colaborar com esse nível de organização, traduzi a mensagem deles para o português.

Os dois ainda insistiram em me levar de carro para a estação, mesmo sabendo que eu vou para Londres 6h50. Mais fofos, impossível.

Problemas

Nem tudo são as flores cultivadas pela Karen, em Brighton, e pelo Mike, em Eastbourne…

Mosaico com foto de floro em vaso do lado de fora de casa e outras do lado de dentro entre uma abertura da cozinha para a copa e numa mesa Blog Vem Por Aqui

Não tive nenhum atrito ou problema para relatar, mas não devo ter feito o filho da Karen muito feliz no dia em que voltei para casa por volta de meia-noite e esqueci a chave. Ter que acordar de madrugada para abrir a porta para hóspede esquecido não é mole, não.

Na casa de uma colega de curso, os estudantes são proibidos de usar fogão desde que um brasileiro chegou bêbado e colocou fogo na cozinha ao esquecer uma panela vazia sobre a chama acesa.

E quando os anfitriões criam problemas?

Também é duro de aguentar… As maiores dificuldades, normalmente, estão associadas ao tempo de banho. Alguns hostess impõe limites porque água e energia são coisas sérias por aqui. O problema é que tem gente que passa de uma lógica aceitável.

Outra colega de ELC está numa casa onde só pode tomar um banho por dia, durante cinco minutos. Isso mesmo. Cinco minutos cronometrados ou a dona da casa corta a água.

Depois de reclamar, ela ganhou cinco minutos adicionais.

Se fosse só isso, talvez até desse para contornar, mas a dona Maria ainda é grossa, daquelas que trocam a ferradura todo dia.

Mesmo numa situação como essa, não adianta ir apelando. O primeiro passo é sempre tentar resolver na conversa, diretamente com que está te hospedando. Se não for possível, a escola responsável e a Central do Estudante podem intervir.

Minha colega conseguiu uma casa nova, mas vai ter que esperar duas semanas para concluir o período que estava pago e, só então, mudar.

A convivência com essas dificuldades costuma ser uma grande lição, principalmente para os mais jovens. Essa diplomacia proporcionada pela relação com pessoas desconhecidas, com hábitos e culturas diferentes, é um dos legados mais valorizados pelas empresas quando contratam candidatos que fizeram intercâmbios.

Deixando boas lembranças

Se você quer ser lembrado como um bom hóspede é importante fazer sua parte. Como os europeus não têm empregada doméstica, não custa nada se oferecer para lavar a louça e manter seu quarto limpo e organizado.

Avisar sempre que houver alguma mudança de planos ou se for ficar fora até tarde também é o mínimo que se pode esperar de alguém que está vivendo na sua casa.

Não fazer barulho quando outras pessoas estiverem dormindo, não ocupar mais espaço do que o destinado a você, lembrar que a água do planeta está acabando quando estiver relaxando no banho e não levar nenhum convidado sem ter certeza de que seu anfitrião não se importa são outros conselhos indispensáveis.

Aquele vinho ou aquela sobremesa se for convidado para um almoço ou um jantar na casa de outra pessoa também caem bem.

Em geral, é só seguir a lei essencial da vida, não fazer com os outros o que você não gostaria que eles fizessem com você.

Para ler mais histórias de pessoas que fizeram intercâmbio, acesse esse link aqui.

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Comentários

  1. Rômulo Pires disse:

    Quando vamos sair do país para conviver com uma cultura e povo diferente, devemos lembrar que devemos nos adaptar a eles.
    Já fiz intercâmbio em Londres e não foram só flores, tive problemas também, cheguei a quase ter que mudar de casa, mas como eram apenas quatro semanas, resolvi ficar.
    Mas os problemas também fazem parte, até mesmo, para crescimento pessoal.

  2. Luiz Ferreira Silveira disse:

    Tenho vontade de fazer viagens ao exterior e me hospedar em casa de família. Sou jornalista aposentado. Tenho preferência pela Espanha, Israel,Portugal e França.

  3. Amanda.Costa disse:

    Tenho vontade de aprimorat meu ingles e morar por 4 oub5 semanas na Imglaterr
    Gostei do comentario rellativo a sra Karen e so casal lLeila e Mike. Sou estudante brasoleira e curso Veterinaria
    Preciso saber quanto os.custos de hospedagem e se tem curso.etc na.mimha area Animais.

    1. Érika Gimenes disse:

      Oi Amanda, o custo varia muito de acordo com o tipo de programa escolhido. Tem na sua área sim. Veja esse post aqui pra saber mais: http://vemporaqui.com.br/vale-a-pena-fazer-curso-de-idiomas-no-exterior/

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