Foto: Peter Hass
BeabáEuropa
20/02/2017 | Nenhum comentário

Mestrado na Sorbonne

Maria Teresa Diniz é arquiteta e passou boa parte do curso pensando que trabalharia com design de objetos. Depois de fazer um mestrado na França, redirecionou a carreira e se apaixonou pelo Urbanismo. Tanto que criou o Urbitandem, site que debate a relação do homem com as cidades e levanta discussões interessantes sobre a nossa maneira de interagir com os espaços. Ela conta pra gente como a experiência de estudar fora ampliou suas percepções.

A relação de Maria Teresa com viagens é antiga, quase uma imposição genética.

Meu pai adora viajar, meu avô também gostava muito. Minha mãe até brinca que eu sou igualzinha a ele, que eu sou a ‘Tetê também vou’. Fala qualquer coisa [de viagem] que eu também quero ir.”

Aos 13 anos, viajou pela primeira vez para o exterior. O destino escolhido pela família era convencional, a Disney, mas com um componente exótico. A mãe conseguiu uma passagem mais barata via Santa Cruz de La Sierra e o grupo passou o dia na cidade boliviana.

Lembro bem do taxista abrindo o porta-malas do táxi e colocando um pau de vassoura pra segurar...bem estereotipado.”

Observar as diferenças culturais era um prazer para a arquiteta. Tanto que, com 17 anos, ela quis fazer um intercâmbio nos Estados Unidos, mas a vontade de morar fora não morreu com essa experiência.

Assim que terminou a faculdade, Maria Teresa começou a buscar opções para tentar se especializar em design de objetos.

Como estudava espanhol, pensou num mestrado na Espanha. Assistindo TV, ampliou a busca. Viu uma entrevista da então diretora da Câmara de Comércio França-Brasil, em Minas Gerais, Isabelle Gamin, falando do processo para alunos brasileiros estudarem no país europeu.

Maria Teresa também tinha feito aulas de francês e resolveu retomar o curso para ter duas possibilidades. A França passou na frente porque oferecia melhores condições.

A comparação era absurda. Se eu fosse estudar na Espanha, o curso era € 5.000 por ano, se fosse para a Sorbonne era € 500.”

Para aumentar as chances, a arquiteta enviou candidaturas para mais de um curso. E acabou aprovada no plano B, um mestrado em Geografia, onde redescobriu uma matéria que detestava na época da faculdade.

Eu me apaixonei pelo Urbanismo. Fiquei impressionada como os geógrafos entendiam muito mais do tema do que a gente, no Brasil, no curso de Urbanismo.”

Maria Teresa estudou entre 2003 e 2004 na Pantheón-Sorbonne.

Não sei você, mas eu não sabia que a Sorbonne, na verdade, são quatro.

Corredor da Panthón-Sorbonne, alunos sentados nos bancos da lateral e outro caminhando Blog Vem Por Aqui

Nos anos 70 o governo francês dividiu a Universidade de Paris (que era herdeira da Sorbonne original) em 13 escolas. Quatro receberam o direito de usar o nome histórico: Panthéon-Sorbonne, Sorbonne Nouvelle, Paris-Sorbonne e Paris Descartes.

Na época em que a arquiteta estudou por lá, era possível fazer o mestrado em apenas um ano, agora, são necessários dois. No site do curso há um livreto (em francês) com informações detalhadas sobre o programa e as disciplinas.

As inscrições vão de janeiro a março e a resposta sobre a aprovação costuma sair em junho. As aulas começam em setembro.

Nesse outro link há alguns dados importantes para candidatos estrangeiros que querem estudar na universidade.

Maria Tereza numa estação de trem em Paris Blog Vem Por Aqui

Maria Teresa teve que encaminhar um projeto de pesquisa com um tema relativo ao curso para ser aceita e também passou por um teste de proficiência no idioma, mas acha que só foi aprovada porque estudou um ano na escola de Isabelle Gamin. É que, além do idioma, ela aprendeu a escrever e pensar como os franceses, que são mais cartesianos.

Maria Teresa na sacada do apartamento com a Torre Eiffel ao fundo Blog Vem Por Aqui

Também foi Isabelle quem a ajudou a encontrar um lugar para morar. Maria Teresa dividiu apartamento com outras meninas que estudavam em Paris.

Ficamos morando nós três num apartamento de 34 m². O povo acha chique, né, falar que está morando em Paris (risos)? Era aquela coisa de vida de estudante sem grana. Lavando banheiro, cozinhando, fazendo tudo. Estudando e trabalhando no final de semana.”

Pequeno, mais igual a coração de mãe. Maria Tereza numa festa em casa com amigos Blog Vem Por Aqui

Pequeno, mais igual a coração de mãe.

Aliás, a primeira tentativa de trabalhar na França rendeu uma experiência ruim para a arquiteta. Como a documentação para que ela buscasse emprego ainda não estava pronta, Maria Teresa aceitou uma vaga como babá no próprio prédio.

Uma enfermeira e um padeiro, que eram seus vizinhos, tinham um filho de seis anos e, como saiam muito cedo, queriam alguém dali para acordar a criança, dar café e levá-la para a escola. Tudo ia muito bem até que o apartamento foi roubado e a dona apontou Maria Teresa como suspeita para a polícia.

Ela não tinha nem a chave do imóvel, já que chegava quando o casal ainda estava em casa e só batia a porta (que trancava por dentro) quando saia com a criança. Mesmo assim, sentiu a xenofobia dos vizinhos, teve que prestar depoimento e sequer era cumprimentada por eles depois desse episódio.

A partir daí, decidiu que só trabalharia para empresas e, como tinha inglês fluente, encontrou uma vaga no time sharing do hotel Merriot, na EuroDisney.

Trabalhava sexta, sábado e domingo pra poder estudar durante a semana e me sustentar lá em Paris.”

Ela tinha que vender o clube de viagens do hotel para turistas, ganhava comissão pelas vendas e precisava selecionar famílias com o perfil dos compradores. Apesar de ter se divertido com a função, diz que o trabalho não tinha muito a sua cara e, no final do curso, saiu do emprego para ter mais tempo para escrever a dissertação.

Maria Teresa de braços abertos em frente a Ville Savoye Blog Vem Por Aqui

Visitando um dos marcos arquitetônicos de Paris, a Ville Savoye, de Corbusier

Já o Urbanismo entrou na vida de Maria Teresa para sempre. Desde então, ela trabalhou na prefeitura de São Paulo, na USP e tem uma empresa de consultoria no setor. Numa conferência do TED, falou sobre algumas questões que precisam mudar nas cidades brasileiras, usando a capital paulista como referência.

O curso, literalmente, mudou sua vida. Seu olhar sobre o mundo também.

Depois que eu fui me interessando mais pelo Urbanismo virei uma aficionada em fotos, em uso dos espaços públicos e de prédios públicos. Como as pessoas usam, quais os problemas que surgem. Poças, filas, camelôs...Todas essas coisas são motivos de fotos minhas.”

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Na prática

Visto:

– Os interessados têm que fazer um cadastro na internet e enviar a cópia da documentação exigida para Agência de Promoção do Ensino Superior Francês (Campus France), em São Paulo. Os consulados NÃO analisam pedidos de visto que não passarem por esse processo.

– Estudantes que não estão num programa de intercâmbio têm que fazer uma entrevista. Na página da Campus Frances há links explicando o passo a passo para quem precisa e não precisa da entrevistas.

– A pré-avaliação custa R$ 400 e não garante a obtenção de visto.

– Quando o Campus France finaliza a análise do ‘dossiê”, o candidato pode dar início ao pedido de visto no consulado. A marcação é feita pela internet e o procedimento custa € 50.

*** Quem mora em Belo Horizonte tem que passar por uma entrevista prévia no consulado honorário antes de dar início ao pedido no consulado do Rio de Janeiro. 

– Documentos exigidos para a concessão de visto de estudante:

Formulário de pedido de visto de longa duração devidamente preenchido e assinado

2 fotos 3,5 x 4,5 ou 3 x 4 recentes, com fundo branco e sem data

Certidão de nascimento com tradução

Passaporte com pelo menos um ano de validade, (cópias das páginas contendo dados pessoais)

Comprovante de residência no Brasil

Número identificador do Campus France

Carta de aceite do curso (com o período letivo). Em caso de cursos de línguas eles costumam exigir o comprovante de pagamento integral, que a carga horária seja acima de 20h semanais e que a escola seja reconhecida pelo Ministério da Educação francês.

Cópia do último diploma – podendo solicitar ainda o original e o histórico escolar

Comprovantes financeiros do solicitante ou carta de responsabilidade financeira familiar de um mínimo de 615 euros mensais (com reconhecimento de firma no cartório do responsável financeiro). É preciso levar os três últimos contracheques, a declaração de imposto de renda e de aplicações do solicitante ou do familiar que assinar a declaração.

Comprovante de residência na França: confirmação da residência universitária ou o contrato de aluguel. Quem for se hospedar na casa de conhecidos tem que levar a carta de acolhimento, o comprovante de residência do responsável, a cópia da identidade ou do passaporte e, no caso de estrangeiros, a cópia do “titre de séjour”

Seguro de viagem internacional (com cobertura total de € 30.000).

***Vale lembrar que quando consulados falam em cópias ou em traduções, estão se referindo a cópias autenticadas e traduções juramentadas.

– Todo o procedimento do visto pode demorar mais de três meses

– Uma vez concedido o visto, o estudante tem três meses, depois que chegar na França para procurar o escritório de imigração da cidade e conseguir a residência temporária.

Curso:

Data limite da inscrição: 20/03/17

Duração: mínimo de 2 anos

Para valores e documentação exigida: acesse o site da Universidade

Custos

* Passagem de avião

Belo Horizonte – Paris (ida e volta) – média de R$ 2.800

* Seguro saúde

Com validade de um ano – pode variar de R$ 1.750 a R$ 11.000 dependendo da cobertura e da seguradora

* Outros custos

Os blogs Morar em Paris e Viver em Paris têm posts explicativos sobre o custo de vida na Cidade Luz.

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