Foto: Arquivo A Casa Nômade
BalaioAméricaÁsia
17/10/2017 | 2 comentários

Roubadas de viagens

Desde que começaram a alimentar o sonho de viver viajando e a colocar em prática essa vontade de desbravar o mundo, Glória Tupinambás e Renato Weil já conheceram 59 países.

A história do casal fez sucesso por aqui. Muita gente torcendo pelos dois, animada com a coragem, sonhando em fazer igual ou admirando o desprendimento.

Quem leu o post sobre o nascimento da Casa Nômade sabe que as coisas não aconteceram da noite para o dia, mas não imagina a coleção de roubadas que a dupla acumulou antes de estar pronta para viver num motorhome.

Motorhome passando numa estrada no meio de dunas de areia Blog Vem Por Aqui

Então, senta, que lá vem história, e descubra porque a vida na estrada é para poucos.

Coisas que o dinheiro não compra

É a própria Glória quem diz que vivia numa bolha familiar. Criada no interior, filha de uma mãe muito organizada, ela carrega (até hoje), no caminhão, toalhas bordadas à mão pela avó.

Da menina que pagava por tratamentos caros para deixar o cabelo mais liso a que cortou os fios bem curtinhos para facilitar a vida num trem sem chuveiro, foi um passo largo.

Glória com o rosto meio de lado, cabelo curtinho, sorrindo Blog Vem Por Aqui

Boa parte dessa mudança, ela atribui ao Renato.

Ele tem uma visão muito pejorativa de ‘comprar a solução’.”

O fotógrafo sempre criticou as escolhas ruins que a gente se permite fazer só porque tem dinheiro.

Quantas vezes você já se arrependeu de entrar no primeiro restaurante que viu pela frente só porque podia pagar e estava com fome? E aquelas outras tantas em que está estressado com a vida e o trabalho e sai comprando o que puder para se sentir melhor?

No Vietnã, Glória viveu uma daquelas situações que nem todo dinheiro do mundo resolveria.

Glória remando numa canoa de chapéu típico vietnamita, em palha e formato de cone, de óculos escuro e sorrindo Blog Vem Por Aqui

Numa vila, no meio do nada, a 12 horas de trem de Hanói, uma infecção alimentar fez com que ela perdesse cinco quilos em três dias.

A carteira tinha dólares, euros, cartão de crédito internacional, mas não havia médico, nem farmácia por perto.

Foram horas e horas de vômito e diarreia, enfrentados apenas com soro caseiro. O pessoal do hostel até indicou uma benzedeira que usava misturas de ervas pra curar todo tipo de doença, mas ela não quis arriscar.

Renato queria ir à capital vietnamita buscar ajuda, só que Glória se recusou a ficar sozinha. Meio desesperado, ele chegou a uma constatação tão óbvia quanto chocante:

Glória, eu se fosse você, melhorava porque, senão, você vai morrer aqui.”

E essa era a sensação que ela tinha, por isso não quis deixar ele ir. Se fosse pra morrer naquela vila, que, pelo menos, estivesse do lado de alguém que conhecia.

Renato saiu, mais uma vez, para tentar outra alternativa por perto e deu a sorte imensa de encontrar cinco cocos.

Glória conta que eles nunca mais viram coco no Vietnã, mas os cinco, cheios de água, que ele encontrou foram suficientes para ajudá-la a recobrar as forças e voltar no trem.

Na rua pela primeira vez

A lição de humildade não acabou por aí.

Como o trem chegava muito tarde, o casal já tinha combinado com o dono do hotelzinho em que ficaram hospedados em Hanói, que esperasse por eles, na recepção.

No dia e no horário combinado, deram com a cara na porta. Bateram várias vezes e ninguém apareceu para abrir.

Pensaram em andar pela cidade, procurando outra acomodação, mas já passava de 1h da manhã e as ruas da capital vietnamita não tinham iluminação pública e nem táxis circulando.

Cansada e desprovida de qualquer frescura, Glória foi pragmática, sugeriu que deitassem ali mesmo, na porta do hotel.

Renato nem acreditou na sugestão, mas ela estava tão tranquila com a ideia que ele acatou, sem discutir.

Às 6h, quando o dia começou a clarear, a rua ficou barulhenta e eles acordaram. O dono do hotel levou um susto quando viu os dois e pediu desculpas pelo sono pesado.

A gente passou uma noite na rua e não aconteceu nada. Eu acordei a mesma pessoa, não faltou nenhum pedaço. Passei uma noite desconfortável, mas depois deitei na cama, tomei um banho e tô aí.”

A segunda vez

Não é que dormir na rua tenha virado moda para o casal, mas a verdade é que aconteceu outra vez.

Em Mianmar, eles foram para uma cidade tão pequena que tinha apenas seis pousadinhas.

Casas suspensas em palafitas na beira do lago Blog Vem Por Aqui

O lugar, que fica à beira do lago Inle, é famoso pela tradição dos pescadores de puxarem os remos com as pernas e por abrigar uma tribo da etnia Kayan, cuja as representantes são conhecidas como mulheres-girafa.

Pescador remando com o remo preso na perna estendendo a rede no barco Blog Vem Por Aqui

Renato queria fotografar essas particularidades. Dois anos depois da abertura do país, que aconteceu em 2010, rumaram para uma terra que não tinha internet, nem aceitava cartão de crédito.

Foram 12 horas num ônibus em que latas de tinta chumbadas no chão serviam de bancos e os passageiros levavam todo tipo de bagagem.

Ônibus improvisado em caminhão, lotado, com sentadas em cima Blog Vem Por Aqui

O povo entrava carregando couve-flor, sacos de batata, e botava tudo ali, no seu pé. Aquela confusão...E o ônibus ainda quebrou.”

Mulher agachada com bebê no colo e um cesto cheio de couve-flor à frente Blog Vem Por Aqui

Quando chegaram, às 23h, não havia táxis. Rapazes de bicicleta transportavam os turistas por US$ 1.

Eles pediram para ir para uma das pousadas e o ciclista gastou todo seu inglês:

Full, full.”

Glória não acreditou, como tinha os endereços anotados, insistiu para ir até cinco delas, mas estavam mesmo cheias.

A alternativa era fazer como outros turistas e dormir num dos templos budistas, em que os monges abrigam forasteiros, mas ela não gostou do excesso de gente empilhada e do cheiro de tantos mochileiros reunidos.

Quando seguiram para a última pousada, nem o sofá da recepção estava disponível.

O casal ainda conversou com o rapaz da bicicleta e tentou convencê-lo a alugar um quarto de casa para eles. Acharam estranho quando ele recusou o dinheiro e não quis mais levá-los para lugar nenhum.

Decidiram fazer como da última vez, encontraram um banco de madeira na calçada e ficaram por ali.

Glória deitada no banco de madeira Blog Vem Por Aqui

Já dormi em hotéis que foram experiências mais difíceis que essas noites na rua.”

No dia seguinte, foram surpreendidos pela dona de uma pequena agência de turismo que passava pela rua. Ela perguntou porque eles estavam dormindo no banco, se precisam de ajuda, se não tinham dinheiro e ficou muito envergonhada quando eles disseram que podiam pagar pela hospedagem, mas não acharam vagas disponíveis.

A moça estava constrangida porque dizia que seu país não soube acolher os turistas. Ela ajudou a dupla a encontrar um hotel e insistiu muito para que eles jantassem com sua família, só pediu que não contassem a ninguém que iriam até a casa dela.

Só aí, Renato e Glória entenderam porque o menino da bike não quis alugar um quarto para eles. Como o país teve uma ditadura militar forte, os moradores estavam proibidos de ter muito contato com os estrangeiros.

Quando chegaram à casa da anfitriã, se surpreenderam com a simplicidade. A família estava de pé, em volta de uma mesa de bambu, e pediu que eles se sentassem.

Três mulheres da família em pé atrás de Glória que está sentada na cadeira Blog Vem Por Aqui

Só as visitas comeram. Quando o casal insistia para que eles também jantassem, colocavam a mão no peito, solenes, dizendo que eles eram os convidados de honra.

É uma hospitalidade maravilhosa, depois de dormir uma noite na rua, ser recebido assim.”

Na saída, a moça escreveu num papel informações que eles deveriam dar ao dono do hotel quando ele perguntasse onde eles foram. O casal achou que era exagero, mas passou mesmo por um pequeno interrogatório na chegada. Repetiram o que ela havia escrito. Citaram um restaurante local, falaram sobre os pratos que pediram e até o preço.

O iate que era um barquinho

Buscando mais imagens deslumbrantes, Renato e Glória foram até Komodo. Ele queria fotografar essa região, na Indonésia, famosa pelo dragão.

Dragão de Komodo visto de lado, em close com rosto sob a pata Blog Vem Por Aqui

Os dois já sabiam que o sistema de navegação do país, que tem 17 mil ilhas, é bem precário. Até por isso, resolveram contratar uma agência.

O casal também esperava passar quatro dias no mar para chegar a Komodo. Então, fizeram muitas perguntas na tal agência sobre as condições do barco.

O combinado é que eles, e outros 13 turistas, não teriam cabines privativas, mas dormiriam em camas, receberiam todas as refeições e contariam com água doce para tomar banho e usar o banheiro.

Renato e Glória em cima de um pequeno pier de madeira abraçados, cercados de mar azul transparente e com uma montanha ao fundo Blog Vem Por Aqui

Quando chegaram no porto, viram um barquinho de madeira minúsculo esperando. O grupo tinha tanta certeza de que era impossível fazer a viagem no tal barquinho, que nem questionou o dono da agência. Todos partiram achando que aquele era o transporte para chegar a uma embarcação maior.

Só quando tinham zarpado é que se deram conta da furada. O barco não tinha GPS, não tinha telefone celular, nenhuma antena de comunicação, botes ou coletes salva-vidas.

A comida de todos os dias era repolho refogado e arroz.

Pessoas pegando o almoço em potes de plástico no meio do barco Blog Vem Por Aqui

A boia sendo servida…

As camas eram colchonetes bem fininhos.

Pessoas dormindo no convés nos colchonetes Blog Vem Por Aqui

E só dava para tomar banho nas cachoeiras maravilhosas das ilhas em que eles iam parando, mas como tinham que voltar para o barco na água salgada, não adiantava muito…

Numa madrugada, ainda pegaram uma baita tempestade.

Relâmpago caindo no meio do mar Blog Vem Por Aqui

E, apesar de tudo, valeu a pena.

A gente fez um cruzeiro, megainformal, pelas praias mais bonitas que eu já vi na minha vida. No primeiro dia, você está com medo. No segundo, você pensa: ‘Como eu vou morrer mesmo, deixa eu curtir a minha última viagem.’ No fim, vimos o dragão de Komodo e estamos aqui pra contar a história.”

Canoa azul boiando no mar azul transparente com areia branca bem ao fundo Blog Vem Por Aqui

No meio do deserto, tinha uma duna…

O bom humor não foi o mesmo na Jordânia.

Essa foi uma experiência para esquecer.”

A confusão começou na chegada ao país. O casal queria conhecer o deserto e sabia o horário em que as excursões saiam, só que demorou muito na Imigração.

Tudo isso, segundo Glória, porque caíram na besteira de dizer que eram jornalistas.

Ela conta que as três horas de perguntas e investigações minuciosas deixaram uma lição: nunca repetir essa profissão para autoridades imigratórias de um país árabe.

Quando finalmente chegaram ao ponto de partida dos passeios, os grupos já tinham ido. Apesar de terem ficado um pouco desconfiados, acharam até que deram sorte quando encontraram um guia.

O rapaz era muito novo, mas tudo que explicou (e o preço que cobrou) batia com o que eles tinham lido. Ele estava numa 4×4 típica dessas excursões, confirmou as atrações que veriam, a acomodação, o trajeto e lá foram os três para o deserto.

Renato sentado e o guia em pé, ao lado da 4x4 Blog Vem Por Aqui

Renato e Omar, o guia que tomou Doril

Glória já ficou um pouco incomodada quando viu que ele olhava muito para ela pelo espelho retrovisor e os dois não entenderam nada quando chegaram a um acampamento vazio.

Renato diante do acampamento vazio Blog Vem Por Aqui

A coisa ainda piorou à noite, quando o tal guia desapareceu.

Primeiro, ele disse que ia buscar o jantar e um grupo de turistas que também se hospedaria ali.

O rapaz até voltou com a comida, mas acrescentou uma história estranha de que teria que ir embora, para ajudar os tais turistas que tinham sofrido um acidente de carro nas redondezas.

Glória diante da pequena mesa de madeira baixa, com a comida do jantar, sentada numa almofada colorida Blog Vem Por Aqui

A alegria com a comida passou rápido…

Ele prometeu voltar no dia seguinte e marcou um horário. Os dois ficaram com um pé atrás, mas aceitaram os argumentos.

Pouco tempo depois, passeando em volta do acampamento, viram o carro parado atrás de umas pedras. Chamaram o rapaz várias vezes e não tiveram resposta. Como achavam que estavam sendo observados e começaram a ficar com medo, deixaram uma mochila que tinha cadeado na tenda e foram para o alto de uma duna.

Lua e escuridão em volta Blog Vem Por Aqui

Passaram a noite acordados, na escuridão, enfrentando o frio com uma manta e uma jaqueta. Estavam apavorados com o barulho de jipes circulando, já que sabiam que a região fazia fronteira com a Arábia Saudita e era passagem de contrabandistas.

Glória deitada na areia em cima de um lençol com a mochila na cabeça Blog Vem Por Aqui

A lanterna só era usada de vez em quando, para não chamar a atenção de contrabandistas

Quando amanheceu, retornaram ao acampamento e viram várias pegadas em direção à tenda onde deveriam estar dormindo. O cadeado da mochila estava queimado e o carro do guia tinha sumido.

Montanha do deserto com o dia amanhecendo Blog Vem Por Aqui

A conclusão que chegaram é de que era o próprio rapaz que estava à espreita, mais para dar uma de voyeur com os estrangeiros do que para roubá-los, só que, no dia seguinte ele não aparecia.

Três horas depois do combinado, quando já estavam dispostos a sair sem rumo pelo deserto, o tal voyeur retornou.

Glória diz que, nesse momento, entendeu o verdadeiro significado de estado de choque. Ela e Renato estavam tão incrédulos e assustados com tudo que tinham vivido que não foram capazes, sequer, de dar bom dia ou questionar o rapaz. Entraram no carro, mudos e deram graças a Deus quando chegaram à cidade.

Conversando com outros turistas descobriram que estavam até bem próximos do acampamento deles. Mas ao contrário da noite de terror do casal, os outros tiveram uma festa, jantar farto, danças e acomodações bem confortáveis.

Mas, sobrevivemos.”

Com A Casa Nômade

A cada desafio, o casal fica mais descolado, mais preparado e mais desapegado. E, ainda assim, de vez em quando, enfrenta novos testes de paciência.

Na Patagônia, o pneu do motorhome furou à noite, numa estrada deserta.

O primeiro impulso de Glória era sair logo dali, mas ela entendeu que andar com o pneu furado só causaria mais problemas. Como não tinham o que fazer, entraram no caminhão, tomaram um banho e dormiram.

No dia seguinte, com o céu claro, é que foram buscar uma solução.

Renato curvado olhando para um pneu que está segurando e diante de outro no chão Blog Vem Por Aqui

Esse é um dos maiores legados dos perrengues que enfrentam.

Você vai amadurecendo, vai mudando de valores. E o principal que as viagens me ensinaram foi a ter outra noção do tempo. Eu não tenho mais urgência das coisas.”

A ansiedade de repórter, sempre com um horário de fechamento soprando no cangote, acabou.

Eu mudei muito. Já aconteceram coisas até trágicas e a minha postura foi muito diferente. Tenho o maior orgulho disso.”

Motorhome parado numa estrada com o mar azul no fundo Blog Vem Por Aqui

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Comentários

  1. raul disse:

    òtima reportagem.

    1. Érika Gimenes disse:

      Obrigada, Raul!

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