Foto: Jonathan Rashad/Flickr
Na melhor X Na piorÁfricaEuropa
14/09/2016 | 2 comentários

Uma brasileira no meio da Primavera Árabe

Esse Na Melhor X Na Pior vai ser diferente, começa invertido porque vou contar a história mais arriscada que um dos meus entrevistados viveu fora do Brasil. Regina Magalhães é professora de português. Saiu do país pela primeira vez há 16 anos. Desde que começou a viajar para o exterior, não parou mais. Já conhece 29 países. Em 2011 enfrentou uma situação perigosa e inusitada.

Na Pior

O passeio pela Turquia e pelo Egito foi aguardado com ansiedade. Regina seguiu a rotina de sempre, estudou bastante o destino e montou um roteiro com a ajuda de uma amiga que trabalha numa agência de viagens. Ela e o marido gostam de contar com a presença de um guia em todos os lugares que visitam.

Como também é muito metódica, organizou a mala com precisão e passou pela primeira experiência frustrante no desembarque na Turquia, quando a bagagem foi extraviada. A decepção com a mala perdida diminuiu quando Regina conseguiu visitar as cavernas com as quais sempre sonhava. Numa delas, de sete andares, andou por duas horas, observando como viviam os habitantes da região, e saiu encantada.

A chegada ao Egito foi tranquila, Regina viu as pirâmides e foi a um museu que estava ansiosa para conhecer.

Enquanto passeava, as redes sociais ferviam. Grupos convocavam a população a ir para as ruas, depor o ditador Hosni Mubarak que já estava no poder há 30 anos.

Charge de Carlos Latuff do presidente egípcio, Hosni Mubarak, como uma peça de um dominó caindo Blog Vem Por Aqui

O mundo árabe tentava um efeito dominó desde 14 de janeiro, quando os tunisianos conseguiram derrubar o presidente Zine El-Abidine Ben Ali depois de 23 anos de ditadura.

Pessoas protestando no Egito, na Tunisia, no Yemen e na Síria Blog Vem Por Aqui

Protestos no Egito, na Tunisia, no Yemen e na Síria

A revolução acontecia rápido demais para que Regina tivesse a chance de acompanhar, os ecos mal tinham chegado no Brasil quando ela iniciou a viagem. Na saída do museu as coisas tomaram um rumo inesperado para a professora. Ela descreve em detalhes o momento em que conversou com a responsável por apresentar o Egito ao casal.

A guia falou:

- Acho que vai acabar a sua viagem aqui.

Eu falei:

- Como assim?

- É que nós estamos com um movimento muito forte nas ruas.

Mas eu não sabia, eu não entendia. Eu pensava: ‘Que pessoas exageradas, que guia desinteressante!’ Eu falei: ‘Poxa, vou até fazer uma queixa dessa guia!’”

Depois que milhares de pessoas foram às ruas no dia 25 de janeiro, em quatro dias o presidente bloqueou a internet, impôs toque de recolher e colocou o Exército para coibir os manifestantes.

Quando Regina chegou ao hotel, a realidade já estava de cabeça para baixo. Os hóspedes não podiam mais sair e o telefone foi cortado. Ela tentava descobrir o que acontecia e ninguém falava nada. Todas as famílias estavam juntas no saguão e a venda de bebidas alcoólicas foi suspensa.

A professora queria ligar para as filhas, mas os funcionários do hotel diziam que não era possível usar os telefones. Ela continuava perguntando o que estava acontecendo e recebia respostas evasivas, como se os próprios egípcios estivem perdidos. Regina é muito proativa e se recusou a esperar sentada. Disse que ia buscar um telefone, e ouviu de um dos funcionários: ‘Não, você não pode sair porque você pode morrer.’

Ela achou que ele queria assustá-la e saiu, mesmo assim, com o marido. Quando viu soldados por toda parte, resolveu voltar.

Mas Regina não tinha opção de esperar o turbilhão passar por ali. O voo de volta para o Brasil, com escala em Barcelona, estava marcado para o dia seguinte.

Pela manhã, o hotel avisou que não havia táxis. O casal foi para a rua e Regina insistiu até fazer um taxista parar, depois de repetir várias vezes em inglês: ‘Brazilian, brazilian!’

A boa vontade do motorista surpreendeu a professora. Mesmo com um carro pequeno, ele deu um jeito de amarrar as malas no teto e seguiu para o aeroporto.

Tanques no Egito durante a Primavera Árabe Blog Vem Por Aqui

O problema é que a cidade estava tomada por tanques de guerra e militares com fuzis e eles foram parados várias vezes durante o percurso. Em todas, Regina explicava em inglês que era brasileira e estava indo embora.

Quando eu cheguei no aeroporto, eu falei com meu marido: ‘Tô tão nervosa!’ E ele disse: ‘Vou te dar um chocolate.’ Meu marido é exagerado, comprou várias caixinhas de chocolate.”

O exagero do marido foi a salvação de muita gente.

Assim que procuraram o guichê da companhia aérea souberam que o avião não tinha chegado e que não havia nenhuma previsão para o voo. Uma multidão esperava por notícias, espalhada pelo saguão, que, a essa altura, já estava fechado.

Ninguém informava nada do que estava acontecendo, ninguém sabia de nada, que já era a Primavera Árabe, já dentro do Egito.”

Faltou comida no aeroporto e Regina começou a dividir os bombons com outros passageiros do voo para Barcelona. A rede de solidariedade estava formada. Eles deram água à professora e até arranjaram insulina para uma paciente diabética.

Depois de horas de espera, Regina temeu pela vida. E havia motivos para ter medo. Pelo menos 42 pessoas morreram e três mil ficaram feridas nos confrontos com o governo. Mubarak demorou duas semanas para aceitar a renúncia.

O drama de Regina durou 12 horas e acabou quando a embaixada espanhola enviou uma aeronave para resgatar os passageiros que iriam para Barcelona. Apesar do alívio de sair dali, a viagem não foi tranquila. A notícia vaga que eles receberam é de que tinha havido uma invasão no Egito, por isso, ela passou todo trajeto preocupada com atentados terroristas.

Quando nós chegamos a Barcelona é que soubemos o que estava acontecendo e o risco de vida que nós estávamos correndo. [...] Eu fiquei muito impressionada porque, quer dizer, era uma guerra, no meio de uma guerra, e quando eu cheguei, nós estávamos salvos.”

Regina conta que até estar em casa e conseguir processar tudo, foi complicado, mas nada que tirasse a sua vontade de viajar.

Há 16 anos, quando a professora fez a primeira viagem para a França e Inglaterra, teve que ir sozinha porque o marido não quis acompanhá-la. No fundo, ele nem acreditou que ela iria. Naquele momento, Regina começou a ganhar confiança e a ter coragem de enfrentar o mundo.

“Eu estava muito insegura, porque não sabia lidar com passaporte, no aeroporto, mas foi uma experiência fantástica. […] Deu tudo certo! E aí, depois, meu marido começou a fazer todas as viagens comigo e aprendeu, ele adora viajar.”

Hoje, o que era sonho, virou objetivo.

Eu viajo muito, a minha meta de vida é viajar. Eu trabalho, eu adoro fazer o que eu faço, mas a minha meta é viajar. Conhecer culturas, conhecer pessoas, conhecer arquitetura, pintura, escultura... Eu sou muito voltada pra isso. E observar muitos comportamentos. Em cada lugar que eu vou eu observo as pessoas.”

NA MELHOR

Com esse olhar tão apurado e com quase três dezenas de países no currículo, achei que Regina fosse demorar a escolher o melhor momento de uma de suas viagens, mas a resposta foi rápida.

Foi quando eu fui à Suíça, eu falei assim: ‘Deus existe!’ Foi uma coisa tão fascinante, tão linda, tão linda a experiência! Porque nós conhecemos a Suíça de trem, e eu não imaginava que o trem na Europa fosse tão eficaz. E o roteiro...Eu não sabia que os caminhos eram tão lindos, que os lagos fossem tão lindos, a neve! As casas cobertas de neve, os telhados, eu tive muita vontade de chorar, muita vontade..."

Regina esteve no Montblanc, em Montreux, Lausanne, Zurique, mas não foi um monumento ou uma cidade específica que chamou sua atenção.

Regina no trem Blog Vem Por Aqui

As paisagens do caminho e a mistura ininterrupta de cores é que ficaram marcadas para sempre.

Os lagos azuis, com as águas azuis. O trem fazendo as curvas e passando, me dando a possibilidade de enxergar aquilo tudo! E a neve caindo... O trem andando, as casas todas cobertas, as plantas, a vegetação toda branca, branca e verde, branca e verde. Às vezes o sol aparecia. ‘O que é que é isso, neve e sol, céu azul, céu nublado.’  Meu deu um êxtase muito grande.”

Tanto que Regina pretende voltar no verão para ter outro ângulo de tanta beleza.

Casa nevada na Suíça Blog Vem Por Aqui

Se você está planejando uma ida à Suíça, não perca as dicas do Ela é Americana e do Eu Ando Pelo Mundo . O Escritório de Turismo da Suíça também tem um site em português com todas as atrações do país.

Não podia terminar esse post sem fazer uma reflexão sobre o Egito e a Primavera Árabe. Vale a pena ler essa análise da EuroNews e essa outra do blog Um Novo Egito a respeito da desilusão da população com a situação em que está hoje.

Charge que mostra soldado com arma apontada para flor plantada em vaso onde está escrito Primavera Árabe Blog Vem Por Aqui

Acho que há um paralelo, muito sutil, para o que nós estamos vivendo por aqui. Ir para as ruas, conseguir derrubar um presidente, pode ser só o começo do nada se não mudar a população, se não estivermos dispostos a mudar de verdade o nosso comodismo.

O trabalho de cidadania não termina quando um presidente é trocado. Normalmente, ele está apenas começando e, às vezes, nem isso. Uma troca de poder pode ser apenas reflexo de uma comunidade que quer soluções rápidas e mágicas. Aproveite as eleições que vem por aí para fazer, de verdade, a sua parte.

Não podia me esquecer de dizer que a Regina também tem um blog onde conta as viagens dela por aí, passa lá.

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Comentários

  1. Regina Magalhães disse:

    Erika,

    Você é fantástica! Conseguiu, mais uma vez, ao ler seu maravilhoso blog que eu tivesse uma intensa emoção!
    Muito obrigada por essa oportunidade de novamente estar mais perto de você.
    Muito sucesso nessa nova etapa de sua vida. Adorei seu blog.
    Um forte abraço.
    Regina Magalhães

    1. Érika Gimenes disse:

      Regina, obrigada pelo enorme carinho e pelos ensinamentos de ontem e de hoje. Entrevistar alguém que guarda tanta riqueza de detalhes do que vive é fácil e muito prazeroso. Quem bom que honrei suas lembranças. Beijos

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