Foto: Acervo pessoal Marco Pomarico
BalaioÁsiaEuropa
06/02/2017 | Nenhum comentário

A díficil arte de viver de freelas no exterior

A pergunta de um milhão de dólares de todo jornalista apaixonado por viagens é como sobreviver trabalhando de maneira independente no exterior. Contei aqui a experiência da Adriana Setti, que é uma das poucas pessoas que eu conheço da era pré-blog que conquistou esse feito. Mesmo com a ascensão dos blogs, a tarefa continua impossível para quem não surfou nos primórdios dessa onda e não tem muita habilidade comercial. Tive uma conversa muito interessante com alguém com know-how de sobra sobre o assunto. Marco Pomarico é fotógrafo e publicitário. Morou 10 anos na Europa, passou um ano viajando pela Ásia e foi casado com uma jornalista com que estabeleceu uma parceria de trabalho que ajudava a manter vivo o ideal de seguir lá fora, viajando. Ele conta porque ficou tão difícil concretizar esse sonho e faz análises criticas da postura das editoras e do desinteresse crescente do público pelas publicações impressas de viagem.

Marco é formado em Publicidade e trabalhou na área durante 15 anos até sair do Brasil. No final de 1999, deixou o emprego por aqui, aproveitou o passaporte europeu, e foi tentar a sorte em terras lusitanas.

Eu fui na cara e na coragem. Eu tinha um amigo que tinha trabalhado em Portugal, como eu era redator, a única possibilidade de trabalhar fora do país era lá, por causa da língua. Juntei um dinheirinho, que nem era muito. Gastei na primeira semana, caí na farra e quase queimei o tudo. Quando percebi que estava acabando, falei: ‘Agora deixa eu procurar um emprego porque senão vou ter que voltar.’”

Como tinha um contato na agência FCB , Marco levou o portfólio e conquistou uma vaga.

Quando você mora em Lisboa é muito bom, porque você trabalha o dia inteiro e, quando sai do trabalho, está de férias na Europa. [...] Uma das melhores coisas que eu já tive na vida! É libertador você pensar que está fazendo o seu trabalho, aquilo que você gosta, aquilo que você já faz, lá fora.”

Só que Marco já começava a gostar tanto de Fotografia quanto de Publicidade. E aproveitou os novos cenários para praticar exaustivamente o que, até então, era um hobby. Todo final de semana, dava um jeito de viajar.

Sexta-feira eu ia pra estação de trem, olhava pra onde estava saindo um trem na próxima meia-hora, pegava e ia, sem saber o que eu ia encontrar ali.”

No começo, só Portugal bastava.

Como é um país muito pequeno, você começa a se colocar desafios assim: ‘Ah, eu vou fotografar o país inteiro.’ E é o tipo de coisa que você consegue fazer porque é muito pequeno. Pra quem é brasileiro, é raro pensar que pode conhecer um país inteiro.”

Em pouco tempo ele também ficou fascinado pela possibilidade de mudar de cenário com tanta facilidade.

Teto da Mesquita de Córdoba

Mesquita de Córdoba

O interior da Espanha virou alvo de visitas frequentes.

Eu achava maravilhoso você poder pegar o carro e poder ir para um lugar completamente diferente de onde você estava antes, com uma cultura completamente diferente.”

Além de várias cidades espanholas que ficavam a quatro ou cinco horas de Lisboa, após três anos, ele já conhecia todas as regiões de Portugal, todas as cidades turísticas do país e muito mais.

Eu olhava nos mapas antigos aquelas vilazinhas que tinham umas fotos meio bizarras, aqueles lugares pequenininhos...Muitos realmente nem entravam nos guias de Portugal.”

Profissional de viagens

Os colegas de trabalho até faziam piada daquilo que ainda era visto como uma excentricidade. Nas férias, numa vinda ao Brasil, Marco reencontrou uma amiga que estava na mesma agência de publicidade que o mago Ricardo Freire (pois é, o pioneiro dos blogs de viagem também é publicitário…). Depois que viu as fotos do amigo, ela insistiu tanto para ele mostrar para Ricardo, que, na volta para Portugal, quando estava indo para o aeroporto, Marco deu uma paradinha na agência e apresentou seu trabalho para o criador do Viaje na Viagem. Ricardo não só aprovou o material, como recomendou o fotógrafo para os contatos que tinha na editora Abril.

No dia seguinte, em Lisboa, Marco recebeu uma ligação do então diretor de redação da revista Viagem e Turismo, José Ruy Gandra. No telefonema, veio o convite para fazer o primeiro especial da revista, com as terras portuguesas como tema. Quanto às fotos, ele não precisava se preocupar. Foram tantos fins de semana rodando o país, que já estavam todas prontas. Os textos eram o grande desafio. Uma missão que ele aceitou sem fazer ideia do trabalho que ia dar.

Era uma revista inteira, uma coisa bem pretenciosa, do ponto de vista de trabalho. Você fala ‘Uma revista inteira pra fazer, se eu nunca escrevi uma matéria...’ Mas como eu era redator, a coisa funcionou bem. O meu primeiro trabalho profissional [nessa área] foi fazendo texto e foto.”

Durante essa primeira incursão pelo Jornalismo Turístico, Marco ainda trabalhava na agência, mas também começou a vender fotos para algumas revistas.

Com um começo tão promissor, abandonou a Publicidade e foi morar numa cidade com a qual sonhava há muito tempo, Barcelona. Nessa época, o fotógrafo foi convidado para fazer parte de um segundo especial, dessa vez sobre a Espanha.

Marco Pomarico em pé numa ponte de madeira em cima do mar com uma mochila nas costas e a câmera na frente Blog Vem Por Aqui

Marco até tinha juntado um dinheiro no tempo em que trabalhava em Portugal, mas não queria gastar as economias e tentou se manter só com as fotografias para revistas de viagem.

Eu vou te dizer que não era muito viável, não.”

Quando foi fazer as fotos para um terceiro especial da Viagem e Turismo, na Itália, conheceu a repórter com que começou a namorar e acabou se casando. Ele até tentou morar no Brasil por oito meses, mas convenceu a esposa a se mudar para a Europa e voltou para Portugal. Com os textos dela, as fotos dele e os contatos editoriais de ambos, criaram quase um escritório de conteúdo que vendia matérias para revistas daqui.

Começou a funcionar um pouco melhor. Quando você tem texto e foto, já dobra sua renda.”

Foram seis anos em Portugal e o casal começou a desbravar outros países. Aproveitaram o início das companhias low cost para ir à Irlanda, Itália, Inglaterra, República Checa…Logo perceberam que não precisavam estar fixos num só lugar para dar conta do trabalho.

Pioneirismo como nômade digital

Cansaram dos ares lusitanos, mudaram para Valencia e estavam no auge, com a efervescência dos especiais. Mesmo sem morar no Brasil, a esposa conseguiu se transformar em editora desses cadernos para a Viagem e Turismo. Os dois tinham atividades de sobra.

Foi um passo a mais de achar que dava, daquilo que a gente falou no começo, desse sonho de viver fora através do próprio trabalho. Isso começou a crescer e deu um ar de que ia funcionar. E, realmente, bombou.”

Com a sensação de que tudo estava mais tranquilo financeiramente, resolveram ir além e começaram a viver, cada vez mais, um estilo de vida que hoje é moda, mas do qual ninguém falava nos idos de 2008. Eram nômades digitais. Se podiam trabalhar de qualquer parte do mundo, por que não passar um ano viajando? E assim foram para uma temporada de 12 meses por 14 países da Ásia.

Na verdade, quando você faz uma viagem assim, parece que é uma coisa absurda, mas, se você dá uma decupada, vai perceber que é como se fossem várias férias, umas atrás das outras. [...] É cansativo, mas também é diferente. É diferente você fazer isso e você ir aos poucos. Quando você fica um ano inteiro na estrada a sua percepção é outra, primeiro porque você se descola completamente de onde está, da sua cultura.”

Uma viagem tão rica que apresentou a Marco os melhores lugares em que ele já fotografou.

Mosaico com quatro fotos que Marco tirou na Ásia

Tanta novidade, tanta riqueza visual e cultural que ele não sentia falta de ter uma casa. Passaram três meses na Índia. Nos outros países, não ficavam mais que 30 dias. Alguns objetos que sempre levavam davam essa sensação de pertencimento a qualquer quarto em que estivessem dormindo. Fora isso, a vida era a estrada.

A volta

Quando o ano planejado acabou, eles preferiram inovar novamente e foram morar em Aix-en-Provence, no Sul da França, onde ficaram por um ano e meio.

Eu estranhei essa coisa de ter um espaço muito fixo, dava um ar meio de prisão, meio claustrofóbico mesmo.”

Entre 2009 e 2010, os especiais começaram a minguar até acabarem. O casal teria que viver da venda de fotos e matérias isoladas.

Esse esquema é que realmente não é viável. Do ponto de vista financeiro, não dá. ‘Ah, eu vou viver fora fazendo matérias.’ De matérias, não vive. Você tem que ter outra coisa, outra atividade. Em algum momento isso foi possível por causa dos especiais, porque aí você tem um volume muito grande. Você não era uma pessoa fazendo matérias, fotografando, você era uma editora lá fora.”

A partir daí, começaram a planejar a volta para o Brasil e, pouco depois, já estavam morando, novamente, em São Paulo.

A ascensão dos blogs e a política dos impressos

Marco sempre teve uma visão crítica sobre a forma como são feitas as revistas de viagem e nunca entendeu o baixo aproveitamento de profissionais de qualidade que estavam morando no exterior.

Marco de lado conversando com um monge budista com a câmera na mão e vestindo um sarongue Blog Vem Por Aqui

A própria ida para a Ásia deixou evidente essa relutância dentro das redações.

Era uma coisa estranha porque, nesse tempo em que eu estava na Ásia, tinha até uma certa dificuldade das revistas passarem matéria. Como se estava rompendo com um esquema que já existia, é fácil imaginar: ‘Ah, você estava na Ásia, as revistas deviam pedir mil matérias, a Abril devia pedir mil matérias.’ Mas o fato é que não pediam. Rolava um certo ciúme por você estar viajando, estar na estrada. Ou então, um falso pensamento de que eles poderiam estar mantendo a sua viagem pra fora. Em um ano na Ásia a revista não pediu uma matéria sequer e a gente não fazia para outras revistas porque tinha uma certa fidelidade. [...] Era uma coisa muito louca porque a revista tinha colaboradores dos mais assíduos viajando pra fora, numa época que não tinha muita matéria da Ásia rolando, e simplesmente não passavam por uma coisa meio de não ceder àquele esquema que não estavam acostumados.. ”

Para ele, esse pensamento cerrado é que fez com o que o espaço dessas revistas fosse diminuindo.

Era uma falta de lógica ter revistas de viagem feitas do Brasil por pessoas que não viajavam pra fazer essas matérias. Elas [as revistas] têm ainda aquela coisa de não aceitar convites pra viajar, mas também não têm grana pra colocar os repórteres na estrada. Os leitores viajavam mais do que quem fazia a revista.”

Para o fotógrafo, esse posicionamento ajudou os blogs a ganharem espaço e fez com que o impresso parecesse obsoleto.

Ele diz que, num primeiro momento, as revistas até tentaram reverter esse processo, contratando pessoas que moravam fora para fazerem mais matérias, só que Marco acha impossível viver desses trabalhos isolados. Para os profissionais de imagem a situação ficou ainda pior depois da criação dos bancos de fotos. As publicações começaram a apelar para esses bancos, o que, na opinião dele, diminuiu ainda mais a qualidade:

Você passa a ter revistas feitas por pessoas que não viajam e fotos feitas por pessoas que não têm nada a ver com a revista. As revistas começam a perder completamente a personalidade.”

Vida pós-nomadismo

Na volta ao Brasil, Marco ainda fez trabalhos para veículos, como os jornais Estado de São Paulo, O Globo e a revista Época. Como não era contratado exclusivo de nenhuma dessas empresas, ficava difícil competir com os preços dos bancos de imagens. Preferiu voltar para a Publicidade.

Antes de vir para Belo Horizonte, ele ainda morou cinco anos em São Paulo enquanto fazia faculdade de História na USP. O fotógrafo acredita que tudo que viu, no tempo em que estava fora, despertou essa vontade de entender a fundo a construção da nossa sociedade.

Voltou para a Publicidade, mas não abandonou a Fotografia, tanto que está preparando para o fim de março um livro, impresso em risografia, sobre a Ásia.

Enquanto o livro não sai, veja as imagens belíssimas captadas por Marco neste site. E amanhã você vai saber quais as cidades ele mais gostou de fotografar e por quê.

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